Destaques

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Futebol aplicado à política

Compartilhe no Twitter
Compartilhe no Facebook

No livro "Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo", de Mário Magalhães (Companhia das Letras, 2012), uma passagem da vida do famoso militante comunista, assassinado pela ditadura militar em 1969, que mostra como o futebol pode ser associado à política. No início dos anos 1950, o baiano Marighella vivia escondido na cidade de São Paulo, com nome falso, junto com sua companheira Clara Charf - pois, a partir do final da década anterior, quando o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi posto na ilegalidade, ele e seus companheiros eram procurados pela polícia. Mesmo na clandestinidade, porém, o ex-deputado constituinte de 1946 continuava à serviço do partido, tentando cooptar novos adeptos da causa. Para isso, usava sua famosa lábia. Diz o livro:

(...) ele não perdia a oportunidade de vender suas ideias. As conversas sobre futebol podiam redundar em outras, por isso a primeira seção lida nos jornais, unindo gosto e dever, era a de esportes. Um dia não tivera tempo de folhear os matutinos, e um chofer de praça palpitou sobre o jogo da véspera. Marighella calou, pois nada sabia. "Isso nunca mais vai me acontecer", disse a Clara. "Tenho que estar preparado, o povo adora futebol".

Marighella (segundo agachado, a partir da esquerda) e seus amigos de futebol do Grêmio Atlético Brasil, em Fernando de Noronha
"Bicão siderúrgico" - Em outra parte do livro, sobre o período em que Marighella esteve preso na ilha de Fernando de Noronha, o autor fala sobre o talento futebolístico do guerrilheiro:

Ele (Marighella) brincava dizendo que era bom de bola por ter se empanturrado de chocolate na infância. Enquanto alguns peladeiros calçavam chuteiras, despachadas por parentes no continente, Marighella atuava de pés descalços. Seus chutes impressionavam pela potência. Batia de bico, e seu pé direito parecia moldado em ferro. Como dera uma palestra sobre siderurgia, apelidaram-no de Bicão Siderúrgico. Todos os queriam em seu time. Ele era beque, anglicismo para zagueiro. Exibia mais força que técnica, embora não fosse um perna de pau no trato com a pelota ou a canela dos adversários. Colega de prisão a partir de 1942, Noé Gertel o elogiaria como beque "impenetrável" e o melhor futebolista ilhéu.

3 comentários:

Anselmo disse...

"Tenho que estar preparado".

tem comentarista de boteco, de rádio, de TV e de internet que poderia levar esse lema adiante.

Osvaldo Bertolino disse...

Na biografia do Pedro Pomar que escrevi - no forno -, há várias passagens em que o biografado participa de jogos de futebol. Ele mesmo foi um jogador razoável - chegou a integrar a equipe do Remo de Belém (PA). Essa tese que "futebol é o ópio do povo", atribuída á esquerda, é falsa. Ela ganhou força durante a ditadura de 1964, quando o regime se utilizava do futebol para fazer suas propagandas. Osvaldo Bertolino

Marcos Futepoca disse...

Muito bom, Osvaldo. Quando esse livro sair do forno, por favor, nos envie um exemplar, para reproduzirmos alguma passagem aqui no Futepoca. Abraço!