Destaques

segunda-feira, abril 07, 2014

A história de José Leandro Andrade, o primeiro ídolo internacional negro do futebol - Futebol Sem Racismo

Compartilhe no Twitter
Compartilhe no Facebook

“Foi negro, sul-americano e pobre, o primeiro ídolo do futebol internacional”.

Era assim que o escritor uruguaio Eduardo Galeano se referia, em Futebol ao Sol e à Sombra, ao seu conterrâneo, José Leandro Andrade, campeão olímpico em 1924 e 1928 e campeão mundial na primeira Copa em 1930. Muito antes dos brasileiros, que deram ao mundo alguns dos maiores jogadores da História – a maioria negros e mestiços – o meia platino apresentou aos países vizinhos e ao Velho Mundo uma nova forma de praticar o futebol.
Homenagem a Andrade no Museu do Centenário (Montevidéu)

Nascido em 1901 na cidade de Salto, no Uruguai, Andrade era filho de uma argentina com um brasileiro, que não participou de sua criação. Aliás, o pai do atleta havia fugido do Brasil ainda como escravo e teria, na época do nascimento de seu filho, incríveis 98 anos. Mudou-se ainda jovem para o bairro de Palermo, em  Montevidéu, onde passou a viver com uma tia. Trabalhou como engraxate, vendedor de jornais e começou a tocar tamborim, apaixonado que se tornou pelo carnaval. Sim, a festa não é exclusividade dos brasileiros.

Com 1,80 m de altura e 79kg, seu porte lhe dava uma vantagem sobre os concorrentes. Aliado ao físico privilegiado, sua técnica o fez se destacar em sua primeira equipe, o Misiones. O primeiro contrato profissional foi no então forte Bella Vistal, onde atuou como meia direita. Sob as bênçãos do companheiro de time José Nasazzi, mítico capitão da primeira seleção campeã mundial, passou a ser convocado para a seleção uruguaia.

Após suas aparições nos Jogos Olímpicos de Paris e de Amsterdã, Andrade foi celebrado na Europa como o "jogador de futebol com os pés de ouro". Na Inglaterra, pátria do futebol e país mais importante do ludopédio até então, o atleta foi chamado de "o maior de todos os grandes uruguaios", por conta de suas façanhas olímpicas.

O lendário jogador alemão Richard Hofmann descrevia Andrade desta forma: “O Uruguai era então o melhor time do mundo. Sua estrela era Andrade. Um artista futebol que poderia simplesmente fazer qualquer coisa com a bola. Era um cara alto, com movimentos elásticos, que sempre preferia o jogo direto, elegante , sem contato físico e estava sempre à frente com seus movimentos e sua agilidade mental. Andrade era um jogador visivelmente justo. Nunca imitava os interlúdios teatrais de seus companheiros de equipe, que rolavam no chão depois de faltas, a fim de conseguir uma vantagem com os árbitros. Mesmo durante amistosos, Andrade sempre irradiou sorrisos”.
 

Contudo, após um choque com a trave em uma das partidas disputadas nos Jogos de Paris, Andrade começou a ter problemas de visão, que avançaram pouco a pouco. Mesmo assim, disputou a Copa de 1930 e integrou a seleção dos melhores do Mundial. Ali, quem ainda não o conhecia passou a apreciar o futebol daquele que foi apelidado de “A Maravilha Negra”.

Depois da Copa, atuou na Argentina, por Atlanta e Lanús, no Wanderers de Montevidéu e se aposentou pelo Argentinos Juniors. A partir daí, enquanto seu companheiros de seleção conseguiram encontrar outras ocupações, Andrade não achou mais nenhum emprego fixo, e sua vida entrou em declive. 

Em 1956, o jornalista germânico Fritz Hack viajou ao Uruguai para encontrá-lo e, depois de três dias de busca, o encontrou em um sótão, alcoolizado e quase cego por conta do choque ocorrido em Paris. Pouco tempo depois, aos 56 anos, José Leandro Andrade faleceu e seus pertences se resumiam àquela altura a uma caixa de sapatos com medalhas, além de alguns troféus. 

Teve ainda um sobrinho, Victor Rodríguez Andrade, campeão mundial com a seleção uruguaia na Copa de 1950.


2 comentários:

Anselmo disse...

grande Andrade.

pés de ouro é uma bela definição.

Esequias Pierre Filho disse...

O Uruguai esteve naquele momento a frente de outras seleções ao possuir um negro em seu escrete. bela história, apesar de seu melancólico fim de vida.