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quarta-feira, março 23, 2011

Eu e mais 12

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Por Paulo Silva Junior

Por esses dias percebi que minha lista de grandes jornadas futebolísticas era um tanto quanto pacata: fugir da escola pra ir na Javari, quase apanhar no Primeiro de Maio, tentar arrombar um portão pra ver um jogo da Copinha de 94, ir a um treino do Guarani, o primeiro Choque-Rei sozinho, chuva de granizo num Come-Fogo, se passar por corintiano. Boas lembranças, com um pouco de verdade e um tanto de lenda, ganham agora a companhia da epopeia do último sábado. Galway, Oeste da Irlanda.

No meu último final de semana aqui na ilha, depois de dezenas de adiamentos e imprevistos, finalmente encaixei um tempo pra ir a um jogo de um dos times locais. Aqui, são dois os principais: o Galway United, da elite, e o Salthill Devon, da segunda divisão - do meu bairro e o meu escolhido pra gastar a voz. Dei uma passada no site pra pegar o caminho que me levaria ao Drom Club House, local da partida diante do Athlone Town, time também do lado de cá do país. Além das rotas, um telefone: ‘ligue e esclareça suas dúvidas sobre como chegar ao Drom’. É, não ia ser fácil achar a pelada.

Do portão da minha casa até a bilheteria, o marcador contou 13 quilômetros. Tá, nada mal, a bicicleta anda barulhenta, mas os pneus são novos, freios idem, vamos embora. Saí exatamente uma hora antes da partida, e em coisa de dez minutos tinha vencido a área urbana, cerca de metade do caminho. A chuva apertou, eram seis e pouco da tarde e começava a escurecer. A partir daí, me perdi muito. Sabia que estava a uns quatro, cinco quilômetros, mas não havia sinal do estádio. Placas, nada. Uma sequência de ruas iguais, gigantescas sequências de subidas e descidas sem nenhum horizonte pela frente, estreitas, de mão única, uma ou outra casa – vazias, sempre – a cada 100 ou 200 metros.

Os carros que passavam, poucos, algo como uns cinco em meia hora, não respondiam aos meus sinais em busca de informação. Até que passou uma dupla de bicicleta (uma bicicleta, um cara pedalando e outro na carona). Gritei um ‘onde é o campooooo?’, e, na descida veloz, só deu tempo de ambos apontarem o braço pra mesma direção. Bingo. Segui a indicação. Uns 40 minutos depois do previsto, cheguei no tal Drom. A entrada tem uma porteira típica de fazenda, impossível entender que é por ali. Segui uns carros e tive sorte, era lá mesmo:

- Veio de bicicleta? Corajoso, hein?

- É, minha primeira vez aqui, não tinha ideia que era difícil chegar...

- Ingresso é dez euros, mas vou fazer por cinco.

- Pô, valeu. A volta vai ser pior, né?

- Não tem luz, cara. Deixa a bicicleta aí e volta de carona, busca amanhã.

- Não! E aí, como busco amanhã? A pé?

- Ééé... Bom, vai lá, cinco minutos de partida, já. Bom jogo!


Ingresso número 13. Eram 13 os pagantes, meu recorde negativo. Eu e mais 12, fiquei pensando nisso enquanto caminhava pelo estacionamento e achava um lugar pra amarrar a magrela. Comecei a lebrar de alguns jogos "desabitados" do Palestra São Bernardo... Não, sempre dava uns 100 torcedores, pelo menos. E aqueles jogos pela faculdade, sábado, às 15 pras 8 da manhã? Umas seis namoradas, uns cinco amigos, uns três pais, um primo, um irmão. Sem dúvida, 13 pagantes era muito, muito pouco. A conta geral só aumentou porque tinha funcionários do clube, garotos da categoria de base, alguns sócios, os gandulas, os seguranças, equipe médica, funcionários da cafeteria, fotógrafos e umas crianças correndo. Tinha umas 50 "testemunhas", vai.

O cenário era uma mistura de várzea brasileira bem organizada – jogo bastante gritado, torcida formada majoritariamente pelos corneteiros-boleiros, aqueles de agasalho do clube e boné, que mais se parecem com jogadores que acabaram preteridos no vestiário -, e uma noite de happy hour no society, com mulheres falando sobre a vida no lugar protegido da chuva, peladeiros profissionais repetindo as mesmas piadas de sempre num gramado perfeito, com aquela iluminação bem forte e uns carros estacionados atrás dos gols.

Nas laterais, placas indicando as posições das torcidas, local e visitante: uns seis pra cada lado (essa é a parte que me lembra os terrões paulistas). Atrás de uma das balizas, os vestiários e uma escada pra lanchonete (café e chá por 1 euro, bolachas à vontade e TV ligada no jogo do Barcelona, o que levou alguns mortais a ignorarem o jogo in loco para ver Messi e cia.); lá de cima, boa visão para o gramado, bancos confortáveis e nada de chuva ou frio (aqui, sim, o futebol dos engravatados, o society de terça-feira).

O jogo foi bom. Muito rápido, muito pegado, muito balão, pouco espaço. Um futebol inglês com menos técnica, pouquíssimos lances bem armados ou tabelas limpas numa coleção de divididas e chegadas atrasadas e estalos de caneleiras e gritos. É jogo duro e um dezinho mais habilidoso sofreu bastante nas mãos (e pés) do quarto zagueiro. No meio do segundo tempo a chuva parou, finalmente, e decidi tomar o rumo de casa. Pedi licença e desculpas aos deuses do futebol, logo eu, tão contrário e tão crítico da turma dos 42 minutos, aquela galera que vai descendo os degraus do Parque Antártica quando ainda tem jogo, só esperando um derradeiro chute loooooooooooonge do gol pra xingar um último camisa 18 e ir embora. Mas fui pra casa antes do melão parar de rolar.

A volta foi tensa. Naqueles dez, quinze minutos na estrada escura e estreita, tive de me deitar junto das vacas e ovelhas por duas vezes. Era impossível de ser visto pelos carros, e então quando eu ouvia um motor roncar e uma luz chegando láááááá no fundo. A única opção era jogar a bicicleta no mato, pular o que parecia um primeiro nível de grama e ficar agachado ali, esperando passar. Choveu um pouco mais, nem mais forte nem mais fraco, só aquela chuva irlandesa de sempre, que mantém a mesma frequência por horas e mais horas e mais horas.

Foi um bom sábado, que terminou em pizza de microondas, cerveja barata e sorriso de canto de boca. O futebol é mesmo fascinante, e tem uma capacidade de nos tirar do estado normal de emoção que ainda me surpreende a cada final de semana.

Ah, o jogo foi 1 a 1. Mas quem ganhou fui eu.


* Paulo Silva Junior é bernardense, palmeirense e jornalista. Colabora, de forma bissexta e imprevisível, com o Futepoca. Gosta tanto de futebol quanto de cachaça. Não fosse o bastante, ainda exilou-se na chuvosa República da Irlanda.

7 comentários:

Anônimo disse...

Paulo, ótimo relato! Espero ler algum texto sobre hurling, futebol gaélico ou whisky irlandês. rs

Vamô Auto!

Matias Pinto

Anselmo disse...

rapaz, que louvável disposição.

e terminar tudo com pizza de micro-ondas mostra a verdadeira coragem do sujeito.

Olavo Soares disse...

Porra, texto épico!

Nicolau disse...

Porra, texto épico! (2)
Mandou bem, Paulo!

Maurício Ayer disse...

que cenário, muito bom!

Renato K. disse...

Cara, que BAITA aventura e texto!!!

Leonardo Almeida disse...

Velho, muito bom o texto!

Parabéns!