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terça-feira, abril 24, 2012

Sobre peladas de praia, Chelsea e Barcelona

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Das peladas que disputei na praia do Itararé, lá pelos meus 20 anos, guardo uma em especial na memória. Éramos seis regulares (em frequência e técnica) boleiros naquele dia, quando outros seis vieram nos desafiar para o famoso “contra”, uma partida de gols caixotes, com “traves” feitas de madeira fincada na areia.

Não foi preciso mais de cinco minutos pra saber que tomaríamos um baile. Conversando ali com um ou outro adversário – oportunidade que surgia quando conseguíamos bicar a bola pra longe e respirar um pouco –, fiquei sabendo que eles jogavam em um dos times do quartel de São Vicente. Tinham mais fôlego, mais técnica e muito mais entrosamento que a gente. A areia batida da beira do mar ainda facilitava o toque de bola dos caras. Não víamos a cor da bola. Mesmo.

Juntamos ali, nós, os que não relavam na redonda, e mesmo não acostumados a jogar juntos tentamos armar a retranca, única forma possível de não passar um vexame grandioso. Seguramos um zero a zero que aos poucos começou a desgastar nossos rivais, que continuavam trocando passes e vindo pra cima, mas já começavam a se irritar uns com os outros. E nós ali, convictos na nossa fortaleza mambembe.

Nem sempre se pode ser Deus. Ou Pelé. Ou Messi
Em dado momento, vendo que o tempo avançava e nada de o gol sair, algum deles propôs: quem fizer, acaba. Acho que ele pensou que a gente se arriscaria e iria pra frente. Não, não saímos. Era questão de honra aguentar até cansar, ou cansá-los. Mas, depois de algum tempo, o homem mais recuado deles resolveu ir mais à frente, descuidando da frente do gol caixote. A bola sobrou na minha frente e acertei um chute da intermediária, que entrou caprichosamente entre as duas traves... Comemoramos muito enquanto os caras não acreditavam naquilo. Depois do jogo, ainda dava para vê-los discutindo ao longe.

Foi a “vitória do futebol arte”? Claro que não, mas ai de quem dissesse ali que não foi “merecido”. A gente ralou, viu nossa condição de inferioridade, armou um esquema e tentou ganhar o jogo mesmo assim. A retranca foi uma "legítima defesa". Não vi com detalhes a partida entre Barcelona e Chelsea, mas um time que joga contra o melhor do mundo, sai perdendo por 2 a 0, fica quase dois terços dos 90 minutos com um a menos, e que não contou com a ajuda da arbitragem, tem méritos de sobra pra bater no peito e se sentir orgulhoso.

Quem diz que foi uma “derrota do futebol”, na boa, não sabe o que é futebol. Uma das graças desse esporte é justamente o fato de, em um dia ruim, o melhor time poder perder para o pior. Claro, não vai ser engraçado se for o seu time o derrotado, mas se o seu time for o Barcelona... Bom, pelas redes sociais, parece que os catalães têm uma das maiores torcidas do Brasil já que, se você não torce para que eles superem qualquer adversário que ousar tentar batê-los, automaticamente você:

  • não gosta de futebol;
  • é invejoso;
  • está com dor de cotovelo;
  • as três anteriores e mais outras tantas

Pura arte o golaço do Ramires, hein?
Pensamento único é um saco mesmo... E se eu, mesmo reconhecendo que o Barcelona é um dos times mais competitivos da história, não for tão fã do futebol deles? Pode ser? E se eu achar que a troca quase infindável de passes às vezes é necessária, em outras pode ser interessante, mas muitas vezes faz o jogo ficar chato pra burro? E se eu gostar mais da imprevisibilidade, do toque de gênio que às vezes decide uma partida truncada, do que de um time todo certinho, bonitinho, que é competitivo até dizer chega (friso o termo “competitivo”, porque ter posse de bola e não deixar o rival jogar é sim uma arte, mas não significa que isso seja um deleite para os olhos)? Aliás, essa imprevisibilidade dá as caras quando um Messi pega na bola, sabe-se que dali pode sair algo espantoso, mas no resto do tempo... Não vou esperar algo surpreendente do Puyol ou do Mascherano.

Torcer para o time mais competitivo perder é mais que humano e é uma modalidade exercida por cada um de quando em quando, desde pequeno. Menos patrulha e mais liberdade para os secadores, por favor!

PS: Sou a favor  –  e admirador  –  do futebol arte, ainda que a retranca às vezes seja necessária, como qualquer um bem sabe.  Mas sou fã de outros artistas...

12 comentários:

Leandro disse...

O Chelsea plagiou o Corinthians nesta jornada heróica, de muita raça e superação.
Não sou simpatizante de nenhum dos dois clubes, a bem da verdade só sou "simpatizante" de um clube nesta galáxia, mas não tinha mesmo como ficar indiferente à entrega do time londrino.
Agora, aguentar o Galvão dizendo que o Puyol e o Piqué são “grandes jogadores” é de matar…
O Jucilei coloca estes dois no bolso.

Maurício Ayer disse...

Grande Jucilei!

Douglas disse...

Boa lembrança a do Dunga (jogou muito mais do que é falado, diga-se de passagem).

Por sinal, aquela Seleção de 1994 tem muito a ver com esse Barcelona. É claro, não dá pra fazer muita coisa se de um lado você tem Mazinho e Raí em péssimo momento técnico (os piores disparados daquela campanha?) e pouca consciência tática dos jogadores brasileiros.

Também não consigo associar futebol arte com uma equipe que conta com Mascherano (jogador de nome bonito, que tem uma moral inexplicável entre os brasileiros, que no fim das contas é um botinudo com grife). Mas que o Barça é um puta time, isso é!

Anselmo disse...

pô, mó ressentimento pelo mundial de clubes do ano passado... hehe..

piadas à parte, é fato que chorar pela derrota do futebol é exagero. reclamar que não vai ter messi na final nem no mundial de clubes, vá lá (embora soe como tentativa de se apropriar do tom de verde da grama do vizinho, do valor do outro).

agora, se no futebol o time "melhor" ganhasse sempre, não precisaria ter jogo. pena q não assisti.

Anselmo disse...

Ah, sim, lamento mais que o Real do Mourinho tenha vencido o Barcelona no fim de semana do que o trunfo do Chelsea. Desgosto mais do Mourinho.

Nicolau disse...

Olha, por partes. Primeiro, apoio o livre xingamento e secação de todo e qualquer time. Segundo, também acho muito loucas as jornadas heróicas de um time muito inferior contra um superior.

Adianto também que gosto do estilo do Barça, de muito toque de bola. Gosto da movimentação, das viradas de jogo, das enfiadas magistrais. Um jogo muito mais coletivo do que individual, as melhores jogadas quase sempre vem de uma trama, não de um solo. Glauco parece ser mais de solistas, o que é uma opção válida. Solos de guitarra nunca me conquistaram facilmente, hehe.

Isto posto, não dá pra comparar a situação do Chelsea com a de seu grupo de gloriosos guerreiros da Baixada, De Faria. É um dos times mais ricos do universo conhecido, financiado por um magnata cuja fortuna tem origens meio obscuras. Contratou quem quis por anos e tem algumas das maiores estrelas mundiais lá. Se eles são de fato mais fracos que o Barcelona (e são), é por incompetência de alguém. Não por falta de possibilidade, como é o caso de um Asa de Arapiraca que ganha de um Palmeiras - sim, a lembrança inclui uma centelha de provocação, rs. A folha de pagamento do Asa deve ser metade do salário do Felipão - ou do técnico parmerista de quando a partida aconteceu.

Além disso, entendo perfeitamente essa beleza do futebol de sempre abrir margem para o imprevisível, muito mais do que outros esportes. Mas um time como o do Chelsea abrir mão do jogo daquele jeito, com 10 cabra dentro da área, ver Drogba marcando na lateral esquerda, foi deprimente. Faz parte, claro. Ganharam, palmas pra eles. Mas foi deprimente.

Glauco disse...

Nivaldo, não é questão de gostar de solistas. Gosto de alguns tipos de andamento de música, e nem a pálida seleção espanhola, com seus toques de lado, e nem o Barcelona, me seduzem, embora ambos sejam muito competitivo (o segundo, muito mais que o primeiro por conta justamente do solista Messi). Para que o solista - ou um duo como Pelé e Coutinho - se sobressaia, é preciso um conjunto harmonioso, mas prefiro que a orquestra ou banda toque de um jeito mais, digamos, "contundente". E com mais imprevisibilidade (daí sim entram os solistas).

Quanto à diferença entre Barcelona e Chelsea no campo técnico, a questão não pode se resuir só à grana, o futebol não é assim. Se fosse, o Corinthians é quem mais fatura em receitas no Brasil e não perderia da modesta Ponte Preta em uma partida eliminatória. Aliás, o Barcelona fatura muito mais que o Chelsea, em 2010, foram 398,1 milhões de euros contra 255,9 milhões dos ingleses. Em 2009/2010, investiu quase quatro vezes mais em atletas do que os britânicos, mesmo com sua decantada base.

Noves fora, a questão é que tecnicamente o Barcelona é melhor que todos os outros, segundo quase todos; é um dos melhores times da história, segundo a maioria; e até mesmo o melhor de todos os tempos, segundo alguns. Qual a vergonha de jogar na retranca (com um a menos quase dois terços do tempo) contra uma equipe assim? Seria melhor que os jogadores do Chelsea se ajoelhassem e se oferecessem em sacrifício ao Barcelona, deus do futebol inconteste? Acho que não.

Nicolau disse...

Glauco, ninguém pediu sacrifícios. Mas você está transformando a partida num Davi contra Golias, e não tinha Davi na parada. Insisto que não tem comparação a pelada dos manguaças contra o time que treinava no quartel e dois times profissionais que pagam alguns dos maiores salários do mundo.

Sobre as orquestras, vou concordar: o que faltou ao Barcelona (fora, claro, o Messi converter o penalti, rs) talvez tenha sido exatamente um pouco desse desequílibrio que um driblador dos bons causa numa defesa. Tivesse Neymar no lugar do estabanado Sanches e o jogo poderia ter sido diferente - o que causou alguma preocupação na Débora aqui em casa, rs. Mas gosto muito das tramas coletivas da equipe, que aliás têm muito de imprevisível também, mas na movimentação e visão de jogo. É animal quando uma bola é enfiada em diagonal para um jogador que, pela lógica, não deveria estar ali.

E é isso que eu quis dizer com os solistas: o sistema no Barcelona é mais importante que a individualidade. Talvez seja possível aliar as duas coisas, aumentar a imprevisibilidade do ataque com jogadas pessoais mantendo a previsibilidade do sistema de marcação.

Sobre ser o melhor time de todos os tempos, não sei. No mínimo, é bem interessante ver um time que modifica de tal forma a organização tática do jogo. Queria ver uns técnicos por nossas bandas que tivessem esse tipo de criatividade...

Moriti disse...

Questão de gosto. O Barcelona é um time sensacional do ponto de vista técnico e tem jogadores incrivelmente habilidosos e imprevisíveis.

Não é só o Messi que sai do roteiro, Xavi e Iniesta fazem coisas surpreendentes em campo, ainda que o recurso fundamental deles não seja o drible, mas o passe.

Isso sem falar nas tantas possibilidades que o jogo coletivo oferece, como bem ressaltou o Nicolau. Os caras formam triângulos em várias setores do campo e se aproximam tanto pra tomar a bola do adversário quanto pra trabalhá-la, além de inverterem as posições constantemente com muita qualidade.

E, sim, é legal ver times mais fracos tecnicamente se superarem e vencerem equipes badaladas. De fato, é um dos fascínios do futebol, porém concordo com o Nicolau. Não tinha Davi nessa parada.

Isso sem dizer que o time catalão só não levou a vaga por mais uma dessas gostosuras do futebol: 5 bolas na trave nos dois jogos, o melhor do time dando contra-ataque que resulta em gol e perdendo pênalti, várias defesas essenciais do goleiro e por aí vai.

Renato K. disse...

Sou fã do Barça e do estilo de jogo deles. Acho, como tantos outros, um timaço, pra mim o melhor do mundo HOJE (nada a ver esse papo de melhor de todos os tempos ...). Adoraria ver o meu SP implementando um filosofia de jogo desde a base - não necessariamente igual à do Barça, pois o que ambiciono é a linearidade das várias categorias, independente do estilo/esquema (apesar de, como comecei lá em riba, ser fã do jeito Barça de jogar). Isto posto, tô com o Glauco: PUTA vitória do Chelsea (no placar agregado, claro). Tomaram um vareio nos DOIS jogos e tiveram um bocado de sorte, também - time pra ser campeão tem que ter sorte -, mas jogaram a ALMA no Camp Nou. Merecido, merecedíssimo - como também seria se passasse o Barça, se é que vocês me entendem ... Abraços a todos do blog !

Maurício Ayer disse...

Ganhar com o time mais fraco aviva o espírito anti-imperialista, faz ver que a ordem das coisas pode de repente se inverter. É a alma carnavalesca e brancaleônica que fala em todos nós.

Lembro de um jogo no colégio em que fecharam um time desigual. Do time "oficial" da classe, eu era o único que fiquei isolado com os baguás. Armamos um esquema retranca e contra-ataque e vencemos. Os caras ficaram tentando achar explicações e nós éramos só gargalhadas. E nem podiam pedir revanche, pois escancararia ainda mais o ridículo deles, arrogância de cara no chão.

É claro que eu sempre vou torcer contra o melhor. Exceto, obviamente, quando o melhor for o meu time.

Douglas disse...

Parabéns matérias esportivas