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quarta-feira, maio 29, 2013

Na seca por 18 meses, há 10 anos

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Meu fígado sempre foi meu orgulho. Quando a médica pediu uma ultrassonografia de abdome superior para ver o estado hepático não hesitei na piada: "Tá de quantos meses? Nasce quando, doutora?"

Não fui eu quem riu por último.

Quando peguei o resultado do exame, o diagnóstico parecia nada bom. "Esteatose hepática difusa grave".

Grife-se o "Grave".

Foto: Marcelo Reis/Wikicommons


Uma consulta ao Doutor Google aconteceu antes que eu pensasse que isso não ajudaria. Na lista das primeiras páginas listadas à época, abri tudo quanto era tipo de artigo. O mais marcante era de um zootécnico, que descrevia o fenômeno em bovinos. "Será que de tanto beber que nem um porco você vai terminar virando uma vaca?", ouvi de um interlocutor, ainda em mesa de bar.

Faz dez anos neste mês de maio de 2013 que este outrora assíduo ébrio -- atualmente um moderado, como todos os leitores do Futepoca -- recebeu a recomendação médica de parar de beber. "É pelo bem do seu fígado. Você não gosta dele, não gosta?"

Eu gostava...

O terror e pânico da médica foram calculados para assustar um embriagado de 22 anos. O medo assegurou 18 meses sem ingerir bebida alcoólica nem gordura. Minto: fiz uma incursão fura-lei-seca depois de sete meses, para celebrar a conclusão da graduação na faculdade. Bastou um chope para ficar feliz-feliz. Os lipídios não tiveram a mesma sorte.

A parte feliz do "causo" é que, em um ano, o fígado estava novo, pronto para outra. Em seis meses adicionais, a liberação para voltar a atuar como profissional. Nesse tempo, uns 30 quilos se perderam.

Foto: Carla Salgado/Flickr
Um universo de cachaças para um simples manguaça


Fato é que, passada uma década, ainda mais quilos a menos, nunca voltei a desempenhar o mesmo papel dentro das quatro linhas da mesa quadrada de alumínio dos botecos do mundo. Houve esforço, mas as obrigações etílicas passaram a parecer maiores do que minha capacidade.

Muitos botecos vieram e virão, visto que tudo isso deu-se na era pré-Vavá, Espeto, Moscão e Roxão. O que significa que ao boteco voltei, tentei, insisti. E como insisti.

Na mesa do bar, naquela hora em que se separam os homens dos meninos, há muito que fico com a criançada.

Felizmente, a fama de manguaça permanece.

3 comentários:

Marcos Futepoca disse...

Memórias de uma ex-vida zonza...

Ainda hoje me questiono sobre o milagre de não ter tido algum problema grave de saúde, em vista dos 20 anos de vida autônoma, pensões, cortiços, repúblicas, empregos estressantes e mal remunerados, sono prejudicado, má alimentação, desleixo total com a saúde e, claro, muita bebedeira. Mas não me iludo: uma hora essa conta vai ser cobrada, ah, se vai...

Sobre o camarada De Massad, seu figueiredo comprovou ser um amigo de verdade, pois, apesar do susto e do tratamento bruto, é nítido que sua boa saúde, alimentação e consumo saudável de manguaça se consolidaram. O que nos leva a crer, parafraseando o poeta, que "o fígado é melhor amigo do homem".

Abraço!

E ao bar! (enquanto é possível...)

Maurício Ayer disse...

Impressionante saber que isso foi na era pré-esses-bares-todos. Quando o conheci o senhor já era um sobrevivente! Eu tô agora lutando contra uma esofagite, mas não consigo largar nem a manguaça nem o café, o máximo que larguei foi o refrigerante (e tenho evitado o provolone à milanesa).

fredi disse...

Minha solidariedade aos manguaças amigos. A vida é dura, as dores vêm, as ressacas são mais sentidas, mas a gente persiste.