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domingo, outubro 06, 2013

Recitação Abrideira

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Por Elvis Campêllo, Maurício Ayer e Vinicius Reis.

Com contribuições de Deusdete Nunes, Evelyn Inocêncio, Fernanda Kurebayashi, Gilson Rosa, José Marcio Fernandez Cunha e Leandro Nagata.

Sob a batuta do maestro Jairo Martins da Silva.


Senhoras, senhores, bem-vindos sejam
A esta casa aberta e generosa
Que nos recebe a todos pra uma prosa,
Saberes e sabores aqui vicejam.
Agora vou pedir vossa licença
Para falar da nossa água benta
O bálsamo sagrado em nossa crença
E o que não se souber a gente inventa.
Peço atenção ao relato que se abriu:
Cachaça é a alma do Brasil.

Zarpou de sua costa o lusitano
No Atlântico traçou uma diagonal
E lá do outro lado do oceano
Sagrou-se grande líder mundial
E nos porões das suas caravelas
Trazia os alambiques de barro
Mudas de cana verde e amarela
Assim começa a história que vos narro
Da aguardente que aqui surgiu
Cachaça é o destilado do Brasil.

Quem primeiro fez a aguardente?
Foi aqui no litoral, em São Vicente?
Ou foi na Ilha de Itamaracá
De onde começou a se espalhar?
Ou na Bahia, em Porto Seguro,
Com um destilador de barro escuro?
Inspirado na bagaceira ibérica,
Foi o primeiro espírito da América,
Que a nação brasílica serviu,
Cachaça deu origem ao Brasil.

Pois disse o mestre Câmara Cascudo
“Mói o engenho, destila o alambique”
Açúcar é do mé irmão em tudo
E só Gilberto Freyre que me explique.
Em casa de coser méis fazia o negro
A água mineral dos coronéis
Guardava em tonéis e pelo emprego
Não recebia nem tostões nem réis.
Sal do suor e o sangue do gentio,
Cachaça conta a história do Brasil.

Plantar as mudas na estação chuvosa
Ver se desenvolver cana frondosa
Pra colher quando bate a estiagem
E antes de levar para a moagem
Tirar a palha e lavar a areia,
Garapa corre para a dorna cheia
Onde irá trabalhar a levedura
Então vai pro alambique e a prata pura
Desliza docemente pro barril.
Cachaça vem da terra do Brasil.

Ipê, louro-canela, araribá,
Bálsamo, umburana, castanheira,
Carvalho, amendoim, jequitibá,
Grápia, sassafrás e cerejeira,
É tanta madeira e tanto aroma,
Que não dá pra entender essa redoma
Que o mundo fez em torno do carvalho,
Qual fosse única carta no baralho,
Perdendo a distinção a mais sutil.
Cachaça é múltipla como o Brasil.

Cheguei para beber no bar da praça
O garçom logo anotou “um uísque?”
Falei “esse pedido você risque
Que o que eu quero é uma boa cachaça”.
Talvez um coquetel, rabo de galo?
Que tal uma caipirinha bem gelada
Acompanhando uma feijoada?
E com caju, então, eu nem te falo!
Com torresminho ou carne de pernil,
Cachaça põe a mesa do Brasil.

Mas gente, a responsabilidade
É nossa com guris de pouca idade
Ao beberrão lembrar que tem Lei Seca
Não pega em direção quem está zureta
Seja no campo ou seja na cidade
Pois morrerá de morte violenta
E assim jogar no lixo a mocidade
Também com a vida alheia ele atenta.
Cumprimos nossa obrigação civil,
Cachaça tem que cuidar do Brasil.

Desde pequeno eu via o meu véi’
Meu avô com o copinho a apreciar
Sempre antes e depois de trabalhar.
Na idade certa, eu também provei,
Aprendi: não se bebe em martelada
Seja quente ou fria, pura ou casada,
Cachaça feita com o coração,
A cauda não dá rasteira não
Nem a cabeça ataca o corpanzil,
Cachaça é um ensinamento do Brasil.

Minha amiga está gripada, coitadinha?
Não perca tempo, tome uma caipirinha,
Ponha num copo mel, limão e alho,
Misture tudo com o santo remédio
– Sem vodca ou saquê, isso é sacrilégio! –
Amanhã, eu lhe afirmo e não falho,
Você levantará animadinha
Exibindo um sorriso de rainha
E um brilho no olhar primaveril.
Cachaça é a saúde do Brasil.

Mas pra quem passa dessa pra melhor
O inferno não há de ser nenhuma desgraça
Pois dizem que no céu não tem cachaça
Que graça vai ter lá, nosso Senhor?
Ou será que o avesso é que acontece
Os anjos de verdade à Terra descem
E na sala das dornas vêm buscar
Sua parte da marvada pra provar?
Eu trago junto ao peito o meu cantil,
Cachaça é a religião do Brasil.

E o samba quando soa o que é que pede?
Despacho de macumba ou de umbanda?
Depois da capoeira o que se bebe?
No futebol ou quando passa a banda?
Se nasce o filho com quê bebemora?
Se morre, bebe o morto e com quê chora?
Se fica no estrangeiro muito tempo
Procura a sinuosa e toma um alento,
Que volta o remelexo pro quadril,
Cachaça está no sangue do Brasil.

E vamos pôr bagaço na caldeira
Que a branca corajosa brasileira
Vai conquistar o povo da Alemanha,
Japão, Estados Unidos e Espanha.
Nossas colunas a todo vapor
Levaremos ao mundo o teu calor
Para todos os lugares, bares, lares,
Colombo, abre a porta dos teus mares
Para mostrar nossa força mercantil,
Cachaça é a riqueza do Brasil.

Nosso povo há de deixar o preconceito
E junto com a branquinha tomar jeito.
O néctar destilado pelo cobre
O que já foi o cobertor de pobre,
Realiza o lindo milagre da cana
No copo do povão e do bacana
Recebe a mesma deferência nobre,
Quem aprecia acerta, não se engana
Me diga quem viu fado mais gentil,
Cachaça é o orgulho do Brasil.

Pois bem, meus senhores, minhas senhoras
Vamos deixá-los degustar da boa
Enquanto vem o almoço em boa hora
E a sua melodia à língua entoa.
Nosso país foi feito de três líquidos
Suor, sangue e cachaça, tenho dito,
Nas raças somos sim um povo híbrido,
Que escolheu o futuro mais bonito.
Nas matas verdes, sob o céu de anil,
Cachaça é a pátria do Brasil.

Os Cachaceiros da Távola Redonda. 


Esta “Recitação Abrideira” foi composta especialmente para o evento de encerramento da primeira turma do curso de Formação de Sommelier: Cachaças, promovido pelo Senac em seu campus Campos do Jordão. Tive o prazer de ser o enviado especial do Futepoca nessa complexa e árdua missão.

2 comentários:

Glauco disse...

Um salve e parabéns aos autores, genial a peça! Precisa ilustrar isso e transformar em impresso.

E não posso deixar passar a referência à gloriosa São Vicente, que pariu a cachaça no Brasil. Saúde!

Marcos Futepoca disse...

Muito bom!