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terça-feira, abril 07, 2009

Monteiro Lobato explica o crédito e a crise (do subprime?)

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O trecho foi retirado do livro América, de Monteiro Lobato, publicado em 1931. O livro (que comprei por 10 pilas num sebo) é uma série de diálogos com um alterego chamado Mr. Slang, um inglês da Tijuca. Começa o britânico imaginário:

– (...) A dificuldade da situação está em que esta nova estrutura da industria se basea num estimulo permanente do desejo de mais, mais, mais coisas. Enquanto o povo responder ao estimulo que a propaganda incessante e habilissima organizou, a industria crescerá, as empresas distribuirão dividendos, suas ações se conservarão em alta na Bolsa. O consumo intensissimo constitue o alicerce da "prosperity". No dia, porém, em que o eretismo do consumo fraquar, teremos uma crise caastrofica, de proporções jamais imaginadas.
– Poderá fraquear? perguntei especulativamente, porque não via nenhum sintoma disso.
– Acho que vai fraquear, que é fatal a crise. O impeto do "mais" deu no excessivo. O mal estar por excesso de coisas, que você sente, todos acabarão sentindo. Tudo cansa, até ter. O que estamos assistindo na America de após-guerra é uma verdadeira bacanal de consumo. Pura orgia. A "salesmanship" elevada á categoria de ciência é sereia que tem conseguido manter em estado de frenesi a ansia de adquirir coisas, uteis ou inuteis, boas ou más, desejadas realmente ou compradas por arrastamento. vejo, entretanto, um ponto perigoso no sistema. O povo já está comprando a crédito, já está sacando sobre o futuro. O operario que adquire uma Frigidaire para pagar em vinte meses, está usando, como se dolar fosse, a probabilidade de manter-se no goso daquele salario durante vinte meses. Venha uma perturbação economica qualquer, tenha esse operario o seu ganho diminuido ou suprimido – e desabará sobre a America um cataclisma economico de proporções unicas, capaz de refletir-se desastrosamente no mundo inteiro.
(América, 1955, Editora Brasiliense, sexta edição. A acentuação estranha e não afeita nem à nova nem à velha regra ortográfica é reprodução do original)

De 1927 a 1931, o escritor de uma só sobrancelha foi adido comercial do consulado brasileiro em Nova York, nos Estados Unidos e, dizem, se entusiasmou com a possibilidade de dinheiro fácil na bolsa, investiu tudo e quebrou. Depois de voltar ao Brasil, apostaria em empreendimentos de extração de petróleo e ferro, e quebraria a cara.

A obra contém ainda reflexões que atribuem à colonização europeia uma certa inadequação ao clima e à vegetação dos trópicos e a "saudade" da Europa como motivo do distanciamento do americanismo. Expõe o quanto negros e índios eram cordialmente vistos como inferiores, e até – não sei se era ironia ou se eu entendi mal, apesar da "femininice" e da "matercracia" – a ideia de que na América não se pode tratar mal nem aos cachorros nem às americanas.

Mas nem por isso a análise sobre as origens da crise no consumismo e na expansão do "mass production" em contradição com a liberdade de escolha individual, pra citar outro trecho, deixa de ser interessante. E não se pode dizer nem que o teor do texto é excessivamente elogioso nem excessivamente crítico aos Estados Unidos – ele oscila o tempo todo.

Mais EUA
Antes de embarcar para a capital dos Estados Unidos, Lobato havia publicado outro livro que esbarrava no país da América do Norte e que também tem algum traço relacionado ao cenário atual. O Choque das Raças ou O Presidente Negro traz as aventuras de um cientista maluco que cria o "porviroscópio", uma máquina do tempo que o leva a 2228. Eleições presidenciais colocam três candidatos. Pelo partido Masculino, um branco. Pelo partido Feminino, uma bela candidata também de pele alva. E, para completar, um concorrente negro, que vence. No final, para conter a derrota, os brancos estabeleceriam um processo de eugenia de esterilização dos negros, disfarçado de alisamento de cabelo. Que Obama não alise os cabelos.

9 comentários:

Marcão disse...

"Tudo cansa, até ter". Exatamente.

Glauco disse...

Genial o Lobato, embora contestável em alguns pontos. De toda forma, um visionário.

Alexandre Salau disse...

Se o livro foi lançado em 1931 então foi após a crise de 1929, nada de visionário.

Glauco disse...

Alexandre, visionário no sentido de tecer características que são inerentes à crise atual. E é bom lembrar que os efeitos da crise de 29 se fizeram sentir de fato em 1930.

Danilo disse...

gente sem cultura ¬¬

em 1929 teve uma crise nos EUA que ferrou as economias do mundo assim como agora

e o livro foi publicado em 1931, 2 anos após o início da crise ¬¬

Paulo - http://colorscreen.blogspot.com disse...

pois é...

Frederico Vasconcelos disse...

Os comentários econômicos feito no livro América ocorreram justamente dois anos após a crise na Bolsa de Nova Iorque. Certamente o autor foi influenciado por jornais e comentários da época. Não vejo nada de visionário.

Visionário ele foi quando insistiu no projeto de achar petróleo no Brasil, quando líderes locais negavam a essa possibilidade e ridicularizavam o autor fortemente.

Mas Monteiro também pecou quando ridicularizou o Modernismo de 1922. Suas críticas viperinas e zombeteiras contra Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cia. são bem conhecidas no mundo acadêmico.

Ou seja, como todo ser humano, Monteiro Lobato tinha qualidades e defeitos.

Usuale disse...

Boa tarde!

Dia 18 de abril é um dia importante! É o dia Nacional do livro infantil por isso coloquei frases de Monteiro Lobato!

http://usuale.blogspot.com/

Anselmo disse...

Monteiro Lobato não foi um visionário ao tratar sobre a crise de 29. Quem leu o título do post sabe que o objetivo de apresentar o trecho do livro do Monteiro Lobato é pensar em que medida as causas da crise atual (nao a de 29) envolveram riscos conhecidos há mto tempo. Ainda assim, saber que os riscos existem não implica considerar que pode emergir o pior cenário, claro.

Além disso, chamar Lobato de visionário sempre implica uma dose de ironia, principalmente pela ambição de achar petróleo no Brasil.

Ao apontar o risco que o crédito representava, ele não incluía os derivativos que espalham o risco entre mais agentes financeiros, porque é uma ferramenta criada muito tempo depois. Perceber que pode haver atualidade em um texto de 75 anos sempre será algo curioso.