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sexta-feira, abril 10, 2009

Mas será que dignifica, mesmo?

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Na preguiça desse feriado, reflito sobre o que um colega me disse ontem:

- Sabe de onde vem a palavra trabalho? De tripalium, instrumento romano de tortura. (ilustração à direita)

De fato, fui pesquisar na internet e encontrei uma definição etimológica:

Tripalium (ou trepalium) era, a princípio, um instrumento utilizado na lavoura. Em fins do século VI, passou a ser um instrumento romano de tortura. A palavra é composta por "tri" (três) e "palus" (pau) - o que poderia ser traduzido por "três paus". Dessa raiz teriam saído os termos das línguas latinas de hoje em dia, como trabalho (em português), travail (francês), trebajo (catalão) e trabajo (espanhol). Mesmo antes de ser associada aos elementos de tortura medieval, trabalhar significava a perda da liberdade. Quem trabalhava em Roma era o escravo; o patrício estava incumbido das atividades políticas. Somente no século XVI, com o Renascimento, cria-se uma economia mundializada, onde o trabalho passa ao seu papel de importância máxima. E aí começa outra mudança: de tarefa árdua para os não livres, passa a ser um enobrecimento, uma atividade humana importantíssima.

Pois é, a expressão "pau alado" tem sua razão, em vista do tripalium. Para os defensores do trabalho, eu pergunto: "Ser empalado com três paus dignifica o homem?".

- Ah, por último: negócio significa "negação do ócio". Ou seja, também não é boa coisa - arrematou, ontem, o mesmo colega.

E nada melhor do que terminar esse "dignificante" post, em plena Sexta-feira Santa, com os animadores versos de Chico Buarque de Hollanda: "Vai trabalhar, vagabundo!/ Vai trabalhar, criatura!/ Deus permite a todo mundo/ Uma loucura/ Passa o domingo em familia/ Segunda-feira beleza/ Embarca com alegria/ Na correnteza".

Não sei quanto a vocês, mas vou agora regar esse ócio sagrado com vinho, pois afinal, sem a cachaça, ninguém resiste até o Domingo da Paixão...

6 comentários:

Edison Junior disse...

Gostei, Marcos, me fez lembrar de meu saudoso avô. Ele, que trabalhou muito durante sua vida toda até se aposentar, sempre me dizia: "queria saber quem foi o imbecil que disse que trabalho dignifica o homem..."

Olá disse...

Não é à toa que ao invés de escrever isso, algumas placas de campos de concentração da Segunda Guerra traziam a frase: "O trabalho liberta".

Maurício disse...

Impressionante a ironia dos nazistas, não é, Olá. Mostra que eles não eram os monstros que pintam, mas sim muito humanos, ou seja, muito piores.

Mas Marcão, eu atualmente sou tão prisioneiro dos três paus que às vezes preciso me convencer de que é bom, dignificante, pra não cometer uma besteira e deixar um bebê órfão neste mundo. Se isso for dignidade...

Glauco disse...

E Deus, quando quis castigar o homem por seus pecados no Éden, vaticionou que ele iria conseguir o pão com o "suor do seu rosto". Ou seja, teria que trabalhar.

Marcão disse...

Essa observação do Glauco me lembrou uma outra letra de música, sobre o mesmo assunto:


CONSELHO DE MULHER
(Adoniran Barbosa/ Oswaldo Moles/ João Belamino dos Santos)

Trecho falado:
"Quando Deus fez o homem, quis fazer um vagulino que nunca tinha fome
E que tinha no destino nunca pegar no batente e viver forgadamente
O homem era feliz enquanto Deus anssim quis
Mas depois pegou Adão, tirou uma costela e fez a muié
Deis di intão, o homem trabalha prela
Mai daí, o homem reza todo dia uma oração: '-Se quiser tirar de mim arguma coisa de bão, que me tire o trabaio. A muié não!'"

Pogréssio, pogréssio
Eu sempre iscuitei falar
Que o pogréssio vem do trabaio
Então amanhã cedo nóis vai trabaiá

Quanto tempo nóis perdeu na boemia
Sambando noite e dia, cortando uma rama sem parar
Agora iscuitando o conselho da muié
Amanhã vou trabaiá, se Deus quiser
(Mas Deus não qué!)

Pogréssio, pogréssio
Eu sempre iscuitei falar
Que o pogréssio vem do trabaio
Então amanhã cedo nóis vai trabaiá

Quanto tempo nóis perdeu na boemia
Sambando noite e dia, cortando uma rama sem parar
Agora iscuitando o conselho da muié
Amanhã vou trabaiá, se Deus quiser
(Mas Deus não qué!)

Anônimo disse...

I enjoyed reading your blog. Keep it that way.