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quinta-feira, abril 09, 2009

A fronteira invisível no coração dos homens

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Revisando a tese de doutorado de meu amigo Max Gutiez, aprendi que na semana passada, dia 1º de abril, completaram-se 70 anos do fim da Guerra Civil Espanhola. É um dos conflitos mais emblemáticos daqueles anos entre as duas Grandes Guerras. Opunham-se republicanos, em grande parte anarquistas, e falangistas, fascistas, liderados por Francisco Franco. Gente de todo o mundo vai à Espanha lutar contra o avanço fascista e sonhar com um mundo socialista, inspirados na vitoriosa Revolução Russa – em 1934, quando começa a guerra, ela ainda não havia sido traída por Stálin e seus burocratas. Do outro lado, a Alemanha nazista aproveita para testar seus armamentos sobre o povo espanhol, antes de levar a ferro o seu expansionismo.

A guerra se inicia com um dos episódios mais brutais de que ouvi falar. Em Gijón, na região de Astúrias, um importante porto de exportação do minério espanhol, sindicalistas anarquistas organizados se levantam contra a opressão e por melhores condições de vida e trabalho. Tem início a revolução. Avançam e ganham forças. O general Franco é então designado para negociar com os revoltosos. Vai a Astúrias, se reúne com cada líder e cada grupo revolucionário, diligente e amistosamente anota-lhes o nome e o endereço. Na semana seguinte, o Exército espanhol passa em arrastão pela cidade matando um por um todos os líderes, dentro de suas casas e com suas famílias. Foram centenas de mortos em um dia. O telegrama que Franco envia a Madrid diz: "resolvido o problema asturiano". Tamanha atrocidade e infâmia não poderia ser suportada pelo aguerrido povo espanhol, que se levanta, e a guerra se deflagra.

Mais que o heroísmo e sua complementaridade de horror, a guerra civil instaura o pânico e uma total desrazão. Morre-se mais por fuzilamentos do que em confrontos com os inimigos. Uma denúncia era o suficiente para que alguém fosse morto, muitas vezes por companheiros do próprio lado que defendia. E, se hoje parece fácil olhar retrospectivamente e assumir o lado dos republicanos, para quem vivia ali era quase impossível ter clareza do que de fato significava ser anarquista ou fascista, sobretudo o cidadão comum, sem formação política.

Ninguém descreveu esse estado de coisas tão bem quanto Antoine de Saint-Exupéry (foto à esquerda) – ele mesmo, o autor do Pequeno Príncipe, era também piloto e repórter de guerra. O Max o cita em sua tese (ainda inacabada), dizendo que a Espanha é neste momento um lugar onde as “mães (...) não sabem, quando dão à luz, que imagem da verdade irá inflamar, mais tarde, os seus filhos, nem quais os partisans que os irão fuzilar, segundo sua justiça, quando eles tiverem vinte anos”.

Um dos parágrafos mais fortes é este, com citações de Saint-Exupéry:

“O que o espanta é saber que a aparência de uma cidade como as outras mascara um drama que ‘para descobrir (...) será necessário procurá-lo’. ‘Porque’, diz Saint-Exupéry, ‘na maioria das vezes ele se apresenta não no mundo visível, mas na consciência dos homens’. Essa visão aérea da Espanha (é o piloto adentrando o país pela região da Catalunha) mostra aquilo que depois será constatado em terra. Ao entrar em Barcelona, formula a pergunta inevitável: ‘Mas onde está o terror em Barcelona? Além de uns vinte prédios queimados, onde está a cidade em cinzas? À parte algumas centenas de mortos (...) onde estão essas hecatombes?... Onde, essa fronteira sangrenta por sobre a qual se dispara?’. A resposta nos dá o próprio autor: ‘Não encontrei facilmente essa fronteira. É que nas guerras civis ela é invisível e passa por dentro do coração do homem’.”

Às vezes penso que hoje o que vivemos é algo próximo à guerra civil. Não é, como pode parecer, uma alusão ao Capitão Nascimento: a guerra dele tem front e interesses claros. Penso em nossa vida comum, nas cidades, na vida que ainda se pretende política, porque pública. Se mata e se morre sem saber muito bem por quê, se assume causas e se condena por questões circunstanciais – ou por questões de fundo que se perdem em meio à espessa cortina de fumaça das falsas notícias e opiniões infundadas. Qualquer semelhança com o nosso futebol não é coincidência. Mas nem só de futebol se vive, e se mata, no nosso mundinho.

Como outras guerras, a moral da história dessa Guerra Civil, que termina com a vitória fascista, em 1939, às vésperas da invasão nazi da Polônia, talvez seja que, haja o que houver, é a democracia radical – que imprescinde do conflito aberto, do reconhecimento da diferença e sua verbalização clara e respeitosa – que permite a existência de algo que se possa chamar de civilidade. Alguns de nós estamos aprendendo, mas não falta quem fuzile os que se levantam pelo direito de dar voz ao outro e polemizar com ele.

5 comentários:

Luis Henrique disse...

Muito bom o texto, muito assustadora a história.

Glauco disse...

Belo texto e importantíssimo para lembrar a fragilidade do nosso sistema democrático.

Leandro disse...

Falando em notícias distorcidas e opiniões infundadas da nossa imprensalona, dos amplificadores de opinião tupiniquins, vale lembrar que um certo rei fascistinha, filhote exatamente do franquismo citado neste texto, foi muito elogiado recentemente pela imprensa e pelas elites daqui e mundo afora porque mandou calar-se, de forma arrogante e desrespeitosa, o chefe de Governo e de Estado de um país soberano, que foi eleito, reeleito e referendado por seu povo, ao contrário do nefando filhote do franquismo e do famigerado Pacto de Moncloa.

Maurício disse...

Não diria nem só fragilidade, é mais precariedade mesmo.

Marcão disse...

A Guerra Civil Espanhola teve papel crucial na politização do menino Ernesto Guevara de La Serna. Seu pai, Guevara Lynch, fundou um comitê de apoio aos republicanos na cidade argentina de Alta Garcia, para arregimentar voluntários e arrecadar dinheiro e armas. Um tio de Ernesto, o intelectual Cayetano Córdova Iturbúru, cobriu a guerra como repórter e lhes enviava informações exclusivas. Entre seus 9 e 11 anos, Ernesto (ou Teté, seu apelido familiar) acompanhou apaixonadamente o conflito, marcando as batalhas em um mapa da Espanha. Depois disso - e da frustração da derrota, começou a cogitar seriamente a hipótese de, um dia, também pegar em armas para defender seus ideais. O que fez, até a morte.