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quarta-feira, janeiro 26, 2011

Tudo acaba

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Hoje me sinto muito velho. Muito mais velho do que me senti no início do mês, quando fiz (mais um) aniversário. Muito mais velho do que sou ou do que aparento. Porque, mais do que envelhecer, percebo que o mundo que conheci na infância está desaparecendo completamente. Seus cenários e personagens somem, como que por encanto, e nem se despedem de mim. É triste.

Ontem, em minha cidade natal, morreu mais um pedaço desse mundo longínquo e cada vez menos recuperável. Morreu um personagem, um símbolo de uma época. O popular Cido Guarda-Chuva (foto) era um brasileiro padrão: negro, pobre, simples. Figura carimbada de uma cidadezinha do interior. E, para complicar ainda mais sua jornada neste planeta, tinha um leve retardo mental, que o congelou, a vida inteira, como uma criança, um ingênuo, um inocente. Vivia com o auxílio da igreja católica e dos habitantes mais caridosos da cidade. Vivia sorrindo, com os olhos bondosos e totalmente alheios à crueldade dos homens. As crianças zombavam dele. E ele só dava risada, sempre. Eu fui uma dessas crianças, mas sem maldade no que fazia. Espero que ele tenha compreendido isso. E que me perdoe.

Cido é mais uma figura de um tempo que não volta, de uma época que me parece, cada vez mais, ter sido apenas um sonho. O ano passado já tinha nos levado o Alemão Barbeiro, que brincava comigo quando eu era pequeno e que, nos últimos tempos, me fazia a barba reclamando das agruras de seu time do coração, o Palmeiras. Há alguns meses eu estava lá, conversando com ele. E agora ele não está mais. O salão da barbearia está fechado. Alemão morreu. Cido Guarda-Chuva morreu. E eu também morri um pouco com eles.

Não é possível. Nada disso aconteceu, foi tudo imaginação. Já não acredito que eu tenha vivido em uma época assim, com pessoas sem maldade, sem egoísmo, sem ganância, sem pressa. Um mundo que não existe mais, em lugar algum. E que eu desconfio, agora, que talvez nunca tenha existido.

Eu sei, nada justifica. Mas acho que é por isso que eu bebo.

7 comentários:

Anselmo disse...

grande Cido Guarda-Chuva. É preciso beber o morto.

Glauco disse...

Acompanho o voto do relator.

Bruno Ribeiro disse...

Belíssimo texto. Assino embaixo tudo o que disse. Eu também me senti um bocado velho após a leitura.

Maurício Ayer disse...

Marcão, um homem de rara sensibilidade para esse estranho mundo. Por isso será sempre um grande companheiro de copo.
Bebamos.

Fernando Gilliatt disse...

Me emocionei com a leitura... Acho que é a idade chegando tb... Parabéns...

Budu Garcia disse...

Também faço anos no começo deles. Precisamos parar de começar ano e continuar sempre ali, firmes. Por que eles vêm, mesmo.
Vamos lá, vamos beber a eles. E também por eles.

Priscilla Saccomano disse...

é... Minha avó era ilusionista, uma vez se separou de meu avô, apenas p/ ter um momento a sós comigo, menina de uns seis ou sete anos, então acendeu uns palitinhos que soltavam uma faísca colorida, quando a noite caiu, defronte sua casinha mui pequena, numa daquelas travessas da rua amaro cavalheiro, e pela primeira vez eu tive vislumbres do que era o amor, a solidão, o brilho de uma estrela no fundo muito muito escuro de uma noite sem fim.