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segunda-feira, novembro 04, 2013

Vitória salvadora e algumas observações sobre o S.Paulo

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Muricy Ramalho merece uma estátua no Morumbi. O que ele conseguiu fazer em míseros dois meses pode ser considerado, sim, um milagre. A vitória por 2 a 1 sobre a Portuguesa levou o time aos 46 pontos e praticamente o salvou do rebaixamento no Campeonato Brsileiro (embora matemáticos mais pessimistas insistam na necessidade de mais um ou dois empates). Isto posto, gostaria de fazer algumas observações sobre três "verdades" - ou melhor, opiniões - hegemônicas na mídia que, de forma alguma, considero procedentes.

1 - 'Trabalho' de Paulo Autori
Dizem que Muricy só continuou o trabalho implantado por Paulo Autuori. Discordo. Muricy mudou o esquema de jogo, passou a atuar com três zagueiros ("inventando" Rodrigo Caio como líbero), encostou na reserva Osvaldo, Jadson e Fabrício (o "homem de confiança" de Autuori), oficializou Ganso como único homem criador no meio de campo (e mais adiantado), recuperou Maicon e Ademilson e fez o time ser eficiente na bola parada. O que fez Autuori? Dez derrotas em 17 jogos. Isso resume tudo.

Esta "louvação" à Paulo Autuori leva à minha segunda discordância. A mídia "comprou" - ou, pelo menos, não se dignou a contestar - a afirmação de Rogério Ceni de que o legado de Ney Franco foi "zero". Mentira. O trabalho de Ney no 2º turno do Brasileirão de 2012 foi semelhante ao de Muricy agora, com a diferença (crucial, claro) de que ele não pegou o time ameaçado de rebaixamento. Mas, pela primeira vez em quatro anos, montou um time muito bem definido e competitivo. Autuori fez algo parecido?

2 - Trabalho de Ney Franco
Ney "inventou" um ataque com dois pontas e um centroavante, classificou o clube para a Libertadores após dois anos e ganhou um título depois de quatro temporadas na "fila". Não é pouco (não mesmo!). Mas o que aconteceu em 2013? As velhas e desastrosas interferências de Juvenal Juvêncio: Lúcio já veio como titular absoluto e bagunçou a defesa; Ganso, sem condições, teve a escalação forçada e bagunçou o meio; ninguém repôs a ponta com a mesma característica de Lucas, o que bagunçou o ataque.

Pra piorar, Cortez, que havia feito um segundo semestre de 2012 tão brilhante que recebeu uma proposta internacional (recusada) de R$ 18 milhões em dezembro, SUMIU de uma hora pra outra, de forma inacreditável e inexplicável - o que bagunçou a lateral tanto na defesa quanto no apoio ao ataque. Outro azar de Ney: a grave contusão de Negueba, que poderia fazer a função de Lucas (com muito menos qualidade, claro, mas com mais propriedade). Por tudo isso, não culpo Ney Franco. Pelo contrário.

3 - 'Cobras criadas'
Tem uma outra coisa que o camarada Glauco observou logo no início de 2013 e que faz todo o sentido, a de que o São Paulo tinha muita "cobra criada" (leia-se: Rogério Ceni, Lúcio e Luís Fabiano), ou seja, jogadores que peitam técnico e formam panelinhas internas, e que Ney Franco não é um técnico acostumado a lidar com isso. Talvez seja por esse motivo que ele não se dê tão bem em times "grandes". Autuori chegou e barrou Lúcio. Agora, Muricy faz o mesmo com Luís Fabiano. É sintomático.

Por fim, a terceira "verdade" que vem sendo apregoada pela mídia, sobre a "motivação" que voltou ao elenco com Muricy Ramalho. Trata-se de meia-verdade. O que acontece é o seguinte: desde que Muricy saiu, em 2009, nenhum treinador teve pleno comando do time. Juvenal sempre se meteu e desautorizou publicamente quase todos eles. Alguns exemplos: a imposição de Rivaldo à Carpegiani, a "desescalação" de Paulo Miranda de um jogo comandado por Leão, a imposição de Lúcio à Ney Franco.

4 - Desautorizações de Juvenal
Todos esses episódios minaram o poder dos técnicos sobre o elenco, afinal, ficou claro que eles não mandavam nada perto de Juvenal. E a pior desautorização ocorreu justamente com Ney Franco, quando, logo após as eliminações do Paulista e da Libertadores, Juvenal expurgou seis jogadores para a "Sibéria" de Cotia e reabilitou o renegado Juan. Isso NINGUÉM da mídia se lembra de dizer, mas foi ali o início da inevitável crise sãopaulina. Ali, todo jogador passou a ter MEDO da diretoria.

Foi então que, quando o navio já tinha feito água a ponto de ficar só a ponta do mastro para fora, e visivelmente sem condições de reagir, Juvenal se tocou (ou foi pressionado pelo seu grupo político a se tocar) e telefonou para Muricy. Eu imagino que o treinador tenha feito uma única EXIGÊNCIA: "Juvenal, eu encaro. Mas você não interfere em nada!". E assim foi feito. Prova disso é que Juvenal desapareceu da mídia. Muricy não veio com "motivação", mas sim com AUTORIDADE. E resolveu.

5 - Muricy quer autoridade permanente
Agora, com o sucesso alcançado, Muricy dá a entender que sua continuidade no São Paulo não é tão certa quanto parece. A mídia especula que o problema é dinheiro. Na minha opinião, não é o caso. O que Muricy teme é que, passada a tormenta, Juvenal assuma novamente a postura de déspota e volte a interferir desmedidamente no trabalho da comissão técnica. A começar pelas contratações para 2014, que, se Muricy não tiver liberdade para vetar, serão novamente desastrosas. Esse é o "nó" da questão.

Mas Muricy "ganhou" o elenco e é ídolo da torcida. Espero que Juvenal Juvêncio tenha BOM SENSO e leve isso em consideração.




2 comentários:

Moriti disse...

Bom texto, Marcão.

O Muricy ser ídolo da torcida, ter o apoio que tem com a massa, também é fator preponderante, a meu ver, pra evolução. Tanto pro Juvenal quanto pra jogadores complicados, principalmente o LF, fica mais difícil peitar o trabalho de um técnico com a moral que o cara tem com o torcedor, ao menos enquanto durar a lua de mel.

Outro ponto: o elenco não era essa ruindade toda. Muricy é bom, mas não é milagreiro.

Abraço.

Marcos Futepoca disse...

Opa! Obrigado, Moriti.

Que alívio, hein? - rsrsrs

Concordo contigo que o elenco não é uma "ruindade", mas também passa longe do "elenco forte" ("um dos melhores do Brasil"...) apregoado desde janeiro pela mídia esportiva.

Eu digo que Muricy fez "milagre" porque não deve ser fácil tirar um time da penúltima posição na tabela de um campeonato nivelado e disputado como Brasileirão tendo como "opções" Douglas, Mateus Caramelo e Lucas Farias para a lateral-direita; Reinaldo e Clemente Rodríguez para a lateral-esquerda; Edson Silva e Rafael Tolói para a zaga (graças a Deus chegou Antonio Carlos e Rodrigo Caio foi improvisado na defesa, apesar das falhas seguidas na saída de bola...); Fabrício e Wellington como volantes (Denílson e Maicon são "mais ou menos"); Osvaldo e Silvinho no ataque (Ademilson também não é lá essas coisas, nem Aloísio). Concordo que o meio está bem com Ganso titular e Jadson banco. Sobre Luís Fabiano, deixa pra lá...

Portanto, como disse, o elenco não chega a ser uma TOTAL "ruindade", mas é que é bem "sofrível", não há dúvida.

Uma coisa que deixei de escrever porque, na verdade, levanta uma outra polêmica diferente (e complexa): Rogério Ceni. Pra mim, quando Ney Franco saiu, o goleiro foi consultado na hora de escolherem Autuori ou Muricy. O goleiro nunca escondeu que Autuori foi o melhor treinador com quem trabalhou. E a birra de Ceni com Ney Franco tinha se acentuado quando o treinador encostou Fabrício, fato que o goleiro lamentou em entrevistas por considerá-lo "importante para o time". Autuori chegou, tirou Fabrício do "exílio" de Cotia e o efetivou como titular. Coincidência?

Não que Ceni tenha problema com Muricy, longe disso, mas penso que o capitão apostou que Autuori se consagraria tirando o time da crise - e a diretoria resolveu bancar. Mas chegou o momento em que Juvenal viu a Série B como fato quase consumado e resolveu parar com a brincadeira...

O fato de Muricy ter assumido as rédeas com "carta branca" é promissor. Só não se sabe, como eu disse, se essa autonomia continuará a ser respeitada. Milton Cruz voltou mandar no Depto. de Futebol, indicando ou analisando contratações, o que também é bom.

Essa virada de ano será decisiva. O São Paulo precisa de jogadores para quase todos os setores e muitos dos que estão no elenco devem ser mandados embora. Por isso, Muricy tem papel fundamental na definição do novo grupo de jogadores. E no Santos ele não foi tão bem quando precisou renovar o elenco.