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domingo, março 04, 2007

Em um bar da zona oeste de São Paulo...

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Fim de tarde em um bar da zona oeste de São Paulo. Calor de 35 º, típico clima que não só convida, mas exige um momento de, digamos, reflexão sobre o cotidiano regado a uma gelada.

Ao chegar, um acidente acabara de acontecer. Um carro tinha batido na traseira de outro, os motoristas aguardando a polícia. Um caso até banal para uma cidade como São Paulo, não fosse o automotivo que causou a colisão um veículo do serviço funerário.

A mulher que dirigia o carro atingido começa a discutir com o fúnebre condutor. Ânimos acirrados, um homem, talvez motivado pelos instintos primários de Roberto Jefferson, de espectador passa a tomar as dores da moça, exigindo "respeito" do outro contendor. Chega a polícia, os gritos ficam mais altos ainda, já que sempre a coragem aumenta quanto mais a briga se torna improvável.

A essa altura, o bar já não era um bar, era uma arquibancada. Gente chegava e sentava para assistir de camarote, todos com a cadeira de costas para a mesa, voltadas para a discussão. "Tira esse carro daqui que tá atrapalhando", exige para ninguém um dos manguaças que tinha a visão obstruída. "A polícia deveria multar esse cara, ainda por cima está em local proibido", brada outro.

Discussão rolando e chega um cidadão com um copo plástico na mão. Estende para um dos clientes - ou espectadores - e pede: "Vê um gole de cerveja que minha garganta está seca". O rapaz tem uma camiseta com logos de times de futebol em latas de cerveja, uma bonita combinação entre cachaça, esporte e democracia. "Pede água aí", retruca um. "Água não, amigo. Cerveja é melhor...", ri e recebe seu gole.

Copo ganho, agora já empolgado começa a repetir para todos da "arquibancada": "Tenho 45 anos e sabe o que eu consegui na vida? Nada". O mantra era dito a cada cliente até que ele chega no dono do estabelecimento, o Vavá. "Tenho 45 anos e sabe o que eu consegui na vida? Nada", disse. "Bom, já que você não conseguiu nada na vida, não é aqui que você vai conseguir. Agora pode ir embora", disse calmamente e com toda sensibilidade nosso querido anfitrião.

Chega o segundo carro de polícia. Nenhum consenso à vista. Um outro transeunte, conhecido na região por não ter uma sanidade mental exemplar, observa de perto a discussão e chega animado para o dono do bar com o que considerava uma grande "notícia". "Vavá, sabe o que tem naquele carro?", questiona, apontando para o carro funerário. "Cinco mortos! Cinco mortos!", falava, exaltado. "É, e pelo jeito deixaram a porta aberta e um escapou", respondeu Vavá, se referindo a uma senhora transitando por ali que também não é reconhecida pelo seu equilíbrio.

O terceiro carro de polícia chega e a discussão e a pequena multidão se dispersa. Os clientes voltam suas cadeiras para as mesas e o dia-a-dia do bar e do local volta ao normal. Seja lá o que signifique "normal".

4 comentários:

olavo disse...

Merda. Odeio não estar presente em momentos como esse.

Marcão disse...

Isso porque, dias antes, a marquise do prédio ao lado, na mesma calçada em que ficam as mesas do bar, tinha desabado (quando três manguaças foram contratados pelo dono do estabelecimento para retirar uma gigantesca placa de propaganda, cumprindo ordens da prefeitura). Felizmente, ninguém se feriu. E nem vou falar do caminhão da Ortobom e do pneu pulando porque isso já é tema de outro post...

Anselmo disse...

vc não fala do caminhão descontrolado (embora a uma velocidade reduzida) porque não foi a sua cabeça que a porta dele quase arrancou...

petrulis disse...

Lembro como cheguei ai pela primeira vez. O transito tava um inferno. Vinha com um amigo que nao via ha uns quinze anos ou mais. Estressamos. Decidimos parar em qualquer lugar e tomar uma cerveja. Qualquer lugar! Paramos em frente a dois bares igualmente sujos. A diferenca era que um deles chamava Garden Burguers Lanches Rest. Ai tem que ser, nao pode ser outro. De cara ja gostei de entrar e ver varias capas de vinil grudadas nas paredes. De Johnny Rivers a The Mamas and the Papas. A empatia foi imediata com o senhor que nos atendeu: um personagem calvo e grisalho, com avental branco e cara de cantor de tango. Grande Vava, ex arbrito, cabo eleitoral, comerciante do poderoso elexir kutelak. Sobretodo um excelente conversador. Quantas historias deixaram de ser contadas depois de sua despedida? Garden Burguer Rest in Peace.