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terça-feira, outubro 20, 2009

Chute forte

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Por Mouzar Benedito


Mata do Sino é um lugarzinho bonito no município de Juruaia, Sul de Minas. A paisagem montanhosa impressiona bastante, mas representou durante muito tempo uma dificuldade para se jogar futebol: não tinha um lugar plano com tamanho suficiente para se fazer um campo. Não digo estádio, mas apenas um campo mesmo, com largura de pelo menos cinquenta metros e comprimento de uns setenta.

O único lugar que arrumaram, que aplainando um pouco (não existiam máquinas de terraplenagem por lá) podia ter essas dimensões, sobrando pirambeiras bem íngremes dos dois lados, foi na saída para Nova Resende, mas com um problema: a estrada passava pelo meio do campo. Mas antes isso do que nada. Assim, lá era o único lugar que tinha uma regra diferente mesmo nos jogos oficiais: quando apontava um veículo qualquer se aproximando do campo para atravessá-lo, paravam o jogo, mas sem tirar a posse da bola do jogador que estivesse com ela, e depois que o veículo passava o jogo continuava. Ainda bem que o movimento de veículos lá era muito pequeno, na época.

Em Nova Resende não chegou a ser assim. Não tinha um terreno plano, mas um com um declive pouco acentuado, que tinha espaço suficiente para se fazer um campo até maior, com largura para uma futura arquibancada e tudo mais, até um vestiário. Bastava aplainar. Assim foi feito, e o campo ficou até grande e bom, virou Estádio Olegário Maciel, nome da rua em que se situava, e mais tarde, já com muros e até uma pequena arquibancada, Estádio Vicente Maldi, em homenagem a um antigo e fanático torcedor que por sinal teve uns dos filhos que foi um beque lendário na Esportiva Nova Resende, o Vâni. Outro filho, Cesário, foi goleiro.

Bom, mas antes da arquibancada, muita gente assistia aos jogos de pé, nas laterais do campo. Porém, muitos preferiam ficar em cima de um barranco, atrás do chamado “gol de cima”, pois depois de aplainado o campo sobrou um declive forte atrás do “gol de baixo” e um barranco de mais ou menos um metro e meio atrás do outro, que por sinal era vizinho ao cemitério. Chutes muito altos caíam dentro do cemitério e era uma diversão para a molecada pular o muro e disputar quem achava a bola no meio dos túmulos.

E quando algum jogador se machucava, ficando estatelado no chão, a torcida gritava animada: “Joga no cemitério”.

Explicado isso, vamos ao que justifica o título desta crônica.

Zeca, pescador e caçador que garante nunca ter contado uma mentira em toda a vida, um dia assistia a uma discussão no “Bar Esportiva Nova Resende” sobre quem tinha o chute mais forte em toda a história do futebol da cidade. Uns diziam que era o Celinho, que jogava na Esportiva e mudou-se para Juruaia. Era beque de espera, e os tiros de meta que batia atravessavam o campo e caíam atrás do gol adversário, às vezes até dentro do cemitério. Outros diziam que era o Toniquinho, e havia quem defendesse o Zé Leopoldo...

No meio da discussão, Zeca, que estava calado até essa altura, resolveu entrar na conversa e todo mundo se calou, sabendo que ele tinha sempre alguma coisa "inédita" pra contar (e quem é que tinha coragem de chamar suas histórias de mentira?).

— Não é nenhum desses aí. O chute mais forte que já teve aqui era o do Tião Folheiro.

— Como é que o senhor sabe? — provocou o Alcindo.

— Rá! Eu era menino quando reinauguraram o campo da Esportiva, que foi aplainado, acabando com a inclinação. Fiquei sentado no barranco, bem atrás do gol, e vi o primeiro pênalti batido nesse campo novo, pelo Tião Folheiro. Sabe o que aconteceu?

— Nunca ouvi falar!

— A bola enterrou um metro e meio no barranco!



Mouzar Benedito é amigo dos integrantes do Futepoca e, tal como eles, é apreciador de cachaça boa e já foi jurado do festival da cachaça de Sabará. Saciólogo, geólogo e jornalista, é autor dos livros João Rio, 45; 1968, por aí, entre outros.

5 comentários:

Moriti disse...

grande, Mouzar. já sei a justificativa que vou usar agora quando chegar tarde em casa: "coisa inédita".

Anselmo disse...

grande, Mouzar (2)

pô, me lembrei das cobranças de falta do célio silva.

Nicolau disse...

grande, Mouzar (3)
grande Célio Silva. Mas acho que o Gralak chutava mais forte.

Diego Castro disse...

Falta apenas uma reedição de Santa Rita Velha Safada.

Marcão disse...

Isso me lembra uma vez que estava num sitio, la na minha terra, e um velho contava que tinha servido ao Exercito no Mato Grosso, ha muitas decadas, e que, certa feita, a tropa avistou um coqueiro a alguns quilometros, totalmente sem folhagens - so o tronco, esguio e muito alto. Dai o sargento teria mandado alguem checar o que era aquilo e, o voltar, o soldado revelou: "Nao e coqueiro, nao. E uma sucuri em pe!".

E o velho contou isso na maior seriedade do mundo, sinceramente assombrado com aquilo que dizia ter presenciado. Me lembro que corri para o quintal do sitio para rolar de rir.