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quarta-feira, março 31, 2010

No estádio em Istambul

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Depois de visitar estádios em Buenos Aires e Londres, eis que me vejo em um jogo de futebol numa cidade um pouco mais, digamos assim, exótica para futebolistas: Istambul. Viajei para a Turquia por conta do meu mestrado, mas claro que eu tinha que tentar ver um joguinho.

Eu fui mais escolhida pelo confronto entre Besiktas e Eskisehirspor do que o escolhi. Como não entendo uma palavrinha sequer de turco - ô língua difícil! - tive que pedir ajuda à pessoa mais próxima de mim nessa viagem, no caso o professor da universidade que nos acolheu em Istambul, Murat. Como torcedor do Besiktas, ele disse que poderia ir comigo ao jogo. Achei ótimo, pois sabe-se lá se tem mulher nos estádios turcos, e tal. Ir sozinha seria um pouco de aventura demais para mim... eu pensava. Enfim, nem cogitei a possibilidade de ir a outro jogo, e não sabia que no dia seguinte Fenerbahce e Galatasaray se enfrentariam. Perdi o clássico!

No dia do jogo, Murat teve um compromisso e não pôde ir. Quase desisti, mas uma amiga, Joanna, uma americana que até jogava futebol mas nunca tinha ido a um estádio, queria fazer um programa diferente e resolvemos arriscar. Como estávamos em pontos diferentes da cidade, combinamos de nos encontrar no estádio. Cheguei cedo, comprei os ingressos - ponto positivo, sempre tem alguém que fale inglês pra te ajudar, impressionante -, tudo dando certo. Inclusive avistei algumas mulheres na parte de fora do estádio, o que me deixou mais tranquila. Minha amiga demorou um pouco e perdemos o começo do jogo.

Quando entramos, por um segundo pensei: ai, eu não deveria estar aqui. A lotação do estádio era impressionante. Tinha um policial em um dos corredores dizendo "aqui não que já está cheio". Mas cheio é cheio mesmo. Imagino que a sensação seja algo do tipo Morumbi com 100 mil pessoas. Subimos mais um lance de escadas e ficamos espremidas em um dos corredores. Em todos os lances da arquibancada tinha duas fileiras de pessoas em pé. Eu via bem pouco do que se passava em campo. É uma sensação impressionante. Como o ingresso para aquela partida estava muito barato - o Murat havia me dito que o preço partia das 50 liras turcas (60 reais, mais ou menos), mas pagamos 20 liras - a lotação é até justificável. Mas que não é seguro, não é. Ou o time vendeu mais ingressos do que deveria ou as regras de lotação da federação turca não são rigorosas.

No vídeo, um pouco do clima do jogo


Bom, o jogo foi ruim, pra falar a verdade, mas emocionante. Quando chegamos, por causa do atraso, a partida já estava 2 a 1 para os visitantes. O Besiktas jogava mal demais, não conseguia atacar e o goleiro quase entrega um lance patético - por algum motivo ele resolveu dar combate como se fosse um zagueiro, fora da área. Quase entrega o terceiro gol - ridículo. Nisso já tinha colado um turco que fala inglês do nosso lado, explicando que o goleiro Rüştü Reçber estava muito velho e tinha que se aposentar. A idade? Quase 37. Me pareceu que esse goleiro não é tão ídolo quanto Marcos e Rogério, os que falham mas continuam com crédito.

No segundo tempo, o jogo continuou chato. Joanna me diz que parece que não está acontecendo nada. Disse que futebol é bem chato a maior parte do tempo. Exagerei de propósito, mas de fato, quando não é nosso próprio time, tem jogo que é dureza de aguentar. Enfim, poucas chances para o Besiktas, e agora nenhuma para o adversário, encurralado na defesa. Até que ele, o ex-corinthiano Bobô, apareceu e fez o gol de empate, de cabeça, aos 15 minutos. O estádio explodiu. Na verdade não sei se a reação foi assim tão eufórica, mas tanta gente junta sempre provoca uma reação intensa. Tanto que tive que me segurar na minha amiga pra não cair, já que um torcedor cedeu o lugar dele em cima da cadeirinha por pena da minha altura, e se manter em pé na cadeirinha não é mole.

Mas isso era só a preparação para o que estava por vir.

A torcida acordou e passou a cantar seus hinos, a pular, a xingar a torcida adversária, que até então estava dominando, apesar de serem bem poucos e estarem confinados num curralzinho atrás de um dos gols. Aliás, a Joanna me perguntou o motivo da separação. Bom, na verdade eu nem tive que responder.

Aos 28 minutos, Holosko fez o gol da virada do Besiktas. Não me perguntem como foi a jogada. Eu até lembro que foi uma bola bem trabalhada, mas a cotovelada que eu levei na comemoração fez minha atenção mudar de foco. É, rapaz, eu disse que não era seguro. Eu já estive no Morumbi lotado algumas vezes e nunca tinha passado por algo parecido. Levei a pancada na cabeça, me desequilibrei e caí no degrau da frente. Caí em pé, tudo bem, mas no caminho ainda dobrei uma das unhas pra cima, deu aquela descolada da carne. Putz, doeu. OK, está tudo bem, não foi nada grave, mas eu não consigo nem imaginar um princípio de tumulto naquele lugar.

Logo em seguida resolvemos ir embora, para evitar a multidão da saída. Corremos para pegar o barco que nos levaria para perto do albergue. Aliás, uma parte considerável do transporte coletivo de Istambul é feito por balsas, adorei.

Pontos curiosos a destacar: a pronúncia do nome do time. Eles falam Bexictaxxxxxx, uma coisa assim meio Xou da Xuxa. E o estranho caso do "desparecimento" das torcedoras. Elas existiam fora do estádio, mas não vi NENHUMA lá dentro. Acabamos virando atração turística, um cara até tentou disfarçar e tirar uma foto da gente com o celular, tipo assim "não falei que tinham duas gringas no estádio? Tá aqui a prova!". Engraçado. E não tem cerveja no estádio, só chá. Bom, a bebida quente faz sentido, Istambul é bem fria. Já a falta de cerveja... bom, é aquela coisa de sempre.

Bom, o Besiktas fez sua parte, aproveitando a derrota do líder Bursaspor no dia anterior e diminuindo a diferença para 3 pontos. Com a vitória no clássico sobre o Galatasaray, o Fenerbahce tem o mesmo número de pontos, mas leva vantagem no critério de desempate. Faltam 4 rodadas para o fim do campeonato e está tudo embolado. O final vai ser interessante.

6 comentários:

Anselmo disse...

a descrição da unha que se descolou da carne foi impressionante. ainda bem que vc nao mencionou o tipo de carne qeu os vendedores ambulantes eventualmente ofereciam pros torcedores.

e esse Murat, vou te contar! furar, tudo bem. mas impedir de ver o clássico do campeonato não dá! se bem que pelo padrão de lotação, um jogo importante seria duas vezes pior..

Olavo Soares disse...

História sensacional.

Thalita, faz um balanço: em termos de acesso ao estádio, conforto dos assentos, visibilidade do jogo, "trato" do torcedor - quem tá na frente, Turquia ou Brasil?

Nicolau disse...

Jornalismo verdade da Thalita - e com dedo sem unha pra provar (descrição realmente aflitiva, credo)! Valeu!
Sobre a qualidade dofutebol turco, eu vi um pedaço do clássico e achei meio questionável mesmo. Muita correria e pouco espaço pra um jogo mais pensado.

Marcão disse...

Sensacional. Tô começando a ficar com vergonha de não ter feito o menor esforço para ver um joguinho sequer lá na Irlanda - e teve o Real Madrid contra o Shamrock Rovers em julho, no Tallaght Stadium (ao lado de Kingswood, onde morei por 1 mês), e vários jogos da Irlanda pelas Eliminatórias no Croke Park (morei a uma quadra e meia por 3 meses). Bom, mas se eu não vou a estádio nem aqui na cidade de São Paulo...

No mais, sinceras condolências pela unha - e pelo dedo. Uma vez passei por cima de uma unha da mão esquerda com carrinho de rolimã. Ela virou canudinho, ficou pendurada e caiu. O dedo só voltou a ter unha três anos depois. Espero que não seja o caso do seu dedo, Thalita. Beijos.

Thalita disse...

opa
valeu pela preocupacao com a unha, mas esta tudo bem com ela, deu uma descolada soh no cantinho, foi pouca coisa.
Olavo, eh dificil avaliar por um jogo praticamente sem torcida contra. Foi tudo tranquilo, pra comprar ingresso, entrar e tudo o mais. Mas a superlotacao me faz crer que o tratamento ao torcedor eh bem parecido com o do Brasil.
O acesso por transporte coletivo foi facil, mas, tirando o Morumbi, que vai ter uma estacao em breve, isso nao eh problema em nenhum outro estadio de sp.
Pra mim, dah empate. Se vc quiser perguntar algo especifico, manda ai, quem sabe consigo aclarar minha opiniao.

Fernando |CFC disse...

Excelente post.

De clássicos, já vi um Boca x River, um Grenal e uns 60 ou 70 atletibas (média de uns 3 por ano, durante aproximadamente 25 anos... é, acho que é por aí)

A lotação dos espaços tá tipo o Couto Pereira na década de 80, e achei muito legal a manifestação da torcida adversária. Parece pouco, mas é bastante gente. Ainda mais que pelas poucas imagens, parece que todo mundo vai gritando e pulando junto com o time.