Destaques

terça-feira, abril 27, 2010

Uma provocação ao ditador Getúlio, há 70 anos

Compartilhe no Twitter
Compartilhe no Facebook

Quando estive no Pacaembu pela primeira vez, em janeiro, nem me lembrei de que o estádio estava prestes a completar 70 anos, o que ocorre hoje. E a comemoração acontece em grande estilo, com o belo time do Santos decidindo o Paulistão em duas partidas no estádio, contra o (ótimo) Santo André. Nem me atrevo a entrar nas histórias épicas do Pacaembu nessas sete décadas, pois isso dá mais que um livro. Anteontem, no bom programa "Grandes Momentos do Esporte", da TV Cultura, Rivellino e o ex-santista Edu relembraram passagens memoráveis de suas carreiras no estádio, com imagens raras.

Mas o que eu gostaria de recuperar nesse post é um fato político ocorrido no dia da inauguração do estádio. Considerado persona non grata no estado de São Paulo, depois de ter sufocado e vencido os paulistas na revolta "constitucionalista" de 1932, o presidente da República na época, Getúlio Vargas (levado ao poder por um golpe militar em 1930 e confirmado como ditador por novo golpe, em 1937), evitava ao máximo confrontar seus desafetos. Para se ter uma ideia da hostilização, a cidade de São Paulo é, talvez, a única capital de estado brasileira que não possui uma grande avenida ou um local importante batizado com o nome de Vargas. Mas o presidente não podia se ausentar da inauguração do Pacaembu e, a contragosto, compareceu (foto à direita).

Como ocorre em toda ditadura, seria impensável que a população vaiasse ou fizesse qualquer gesto ofensivo ao ditador - o que poderia resultar em prisões, pancadaria e até mortes. Getúlio Vargas saudou a multidão sob um silêncio forçado. Porém, a criatividade do povo deu "um tapa com luva de pelica", como se dizia antigamente, no ditador: quando a delegação do São Paulo Futebol Clube deu a volta na pista de atletismo (foto abaixo), a multidão esqueceu o futebol e, numa nítida manifestação de orgulho pelo nome de seu estado e de sua capital, aplaudiu de pé e aos gritos. Consta que Vargas entendeu a provocação, pois as pessoas berravam "São Paulo! São Paulo!" e olhavam em direção à bancada presidencial, mas permaneceu sério e não esboçou reação. Nenhuma delegação de outro clube, naquele dia, foi saudada dessa forma. Um belo exemplo de como, às vezes, a política consegue superar todos os ódios futebolísticos em torno de uma causa comum. Ah, e esta passagem deu origem ao apelido de "o mais querido" para o time do São Paulo.

6 comentários:

Anselmo disse...

excelente o resgate.

Olavo Soares disse...

Muito boa a história!

Realmente, nunca tinha entendido o apelido de "mais querido" ao São Paulo. Sensacional!

Marcio-SJP disse...

Sensacional mesmo, muito bom!

Como Corinthiano, gostaria apenas que a cidade de SP utiliza-se da mesma regra em que beneficiou o SPFC com o Morumbi...se não fosse o governador se São Paulo o SPFC tambem estava na marginal, mais precisamente no Canindé.

abraços,
Marcio

Marcão disse...

Opa, Marcio-SJP, você tem razão quando recupera isso. A história do Morumbi merece um belo de um livro investigativo, principalmente no período em que o dirigente tricolor Laudo Natel chegou ao posto de governador de São Paulo, entre 1966 e 1967 (era o vice de Ademar de Barros, cassado pela ditadura). Foi logo depois disso que as obras do estádio tiveram um grande impulso, sendo concluídas no final de 1969, para ser inaugurado já em janeiro de 1970.

E, pra botar mais lenha na fogueira, leiam com atenção o que postaram nesse link:

http://www.midiasemmedia.com.br/futebol/seriea/saopaulo/5067-origem-Estdio-Morumbi.html

Leandro disse...

Santa ironia...
Justo o time paulista que mais tem a ver com elites e ditaduras, livrando ligeira vantagem contra o Palmeiras nestes quesitos.

Ringo disse...

Ligeira???? enorme!