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quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Graças a Deus? O papel da Igreja na evolução da cerveja

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O anúncio da futura renúncia de Joseph Ratzinger, vulgo Bento XVI, ao comando da Igreja Católica abre alguma perspectiva otimista para aqueles que professam a fé de Pedro e acreditam em uma religião menos intolerante com a diferença. Claro que essa é uma esperança deveras otimista, já que certamente o quase ex-papa alemão plantou em seu colégio cardinalício, que escolherá seu sucessor, todas as sementes do conservadorismo que tanto lhe apraz.

Mas o fato traz a lembrança de um legado positivo da Igreja Católica para boa parte do mundo (“positivo” segundo entendimento de autores e leitores do Futepoca): a estreita ligação dos católicos da Idade Média com a evolução da cerveja. De acordo com a Larousse da Cerveja, as primeiras iniciativas de produção em maior escala do líquido dourado, algo até então feito de forma doméstica, aconteceram nos mosteiros, no século VI. Entre eles, a famosa Abadia de Bobbio, na Itália, que serviu de inspiração para Umberto Eco escrever O Nome da Rosa.

Pra quem leu o livro ou viu o filme ou simplesmente aprendeu em História, sabe-se que na sociedade iletrada da época boa parte do conhecimento e da pesquisa daquele período se desenvolvia nos mosteiros. Ali que surgiu a conservação da gloriosa bebida a frio, por exemplo, além de terem sido feitas receitas particulares  cuja fabricação e consumo não ficaram restritas aos retiros de monges, alcançando também casas episcopais e catedrais europeias.

Até a Renascença, que traria os fundamentos do capitalismo e da elaboração de métodos de produção mais eficientes, a Igreja tem papel crucial na história da cerveja. E, isto posto, vários de seus santos passam a guardar também relações íntimas com a loira ora gelada, ora não, ressaltando-se que não era em toda parte do continente europeu que se podia plantar uvas e se produzir o sagrado vinho. Daí, sobrava a cerveja...

Produção complicada
O padroeiro dos colhedores de lúpulo, ou padroeiro da própria cerveja na Bélgica, país símbolo desse tipo de bebida, é Santo Arnaldo, ou Arnold de Soissons. Nasceu em 1040 e foi monge na abadia de St. Médard, em Soissons, sendo fundador da abadia de Oudenburg. Um dos milagres atribuídos a ele é que teria mergulhado seu crucifixo em um barril de cerveja fazendo com que o povo bebesse algo mais interessante que água durante um período em que uma praga assolava a população local. Aqui, talvez o milagre possa ser facilmente explicado. Não era incomum que, em alguns lugares da Europa na Idade Média, se incentivasse o consumo de cerveja ao invés de água, dada a chance de contaminação do líquido que o passarinho bebe. Mas não deixa de ser um ponto positivo para a bebida... Além disso, Arnold teria conseguido cerveja para servir ao exército belga orando e apelando a Deus. Para os que acreditam, o dia de São Arnaldo é 15 de agosto, em Bruxelas, o dia é 8 de julho.

Esse Arnaldo por vezes é confundido com outro de nome semelhante, Arnoldo, Santo Arnulf de Mets, um austríaco que viveu entre 580 e 640. A ele é atribuído um milagre que teria ocorrido no transporte de seu corpo para a exumação. Aqueles que transportavam, pararam em uma taberna para descansar e e só havia cerveja para uma caneca. Tal recipiente nunca ficou vazio, matando a sede dos peregrinos. O dia de celebração em sua homenagem é 18 de julho.

Outros santos também têm sua ligação com a cerveja, como Santo Agostinho, considerado pela Igreja Católica o padroeiro dos cervejeiros (28 de agosto); São Wenceslau, padroeiro da região da Boêmia, e São Columbano, cuja importância está ligada ao fato de ter sido um grande divulgador e fundador de mosteiros (a casa da cerveja) na Europa. Mas é uma mulher que merece destaque...

Hildegard, inspirada pelo Espírito Santo
Santa Hildegard (ou Hildegarda, de acordo com o aportuguesamento) von Bingen é considerada a introdutora de um elemento essencial, que faz parte da receita de pureza alemã, o lúpulo. De acordo com esse post, que cita o livro Cerveja - Guia Ilustrado Zahar, "registros do século VIII mostram que o lúpulo era comumente cultivado nas abadias, mas não especificamente para uso em cerveja. A primeira menção inequívoca sobre esse uso está nos textos de santa Hildegarda (1098-1179), abadessa de Rupertsberg, abadia beneditina perto de Bingen, não muito longe da cidade alemã de Mainz". Ainda de acordo com a obra, a santa teria escrito: "Se alguém pretende fazer cerveja com aveia, ela é preparada com lúpulo", fazendo referência à forma como a cerveja era feita até então: os europeus tinham por hábito misturar à cerveja ingredientes como gengibre, especiarias, flores e frutas silvestres. A visão avançada de Hildegard (não só por conta do lúpulo na cerveja, obviamente) inspirou um filme, como lembra o Edu neste post.

Portanto, pode beber sem culpa que a Igreja ajudou a cerveja ser o que é. Pecado é só a gula...

3 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

No lugar da confissão eu redimo meus pecados frequentando a Trindade que foi um convento onde os monges desenvolveram uma cerveja até bem gostosa.

Aliás, só como curiosidade, foi na capela do Convento da trindade que Camões conheceu D. Catariana, por quem se apaixonou e dirigiu poemas.

Marcos Futepoca disse...

No curso de cerveja artesanal que fiz em dezembro, o "professor" deu uma pequena palestra sobre a História da cerveja e citou os mosteiros como responsáveis por uma grande evolução na bebida. Segundo ele, os monges tinha vários períodos de jejum prolongado durante o ano e, para driblar a fome, consumiam cerveja. Por isso, como usavam o líquido como uma espécie de alimento, começaram a testar ingredientes para melhorar o sabor. Vai daí as cervejas Trapistas, dos mosteiros da Bélgica, serem consideradas, ainda hoje, como algumas das melhores do mundo.

Anselmo disse...

rapaz, que interessante!

no livro "O Nome da Rosa", tem uma passagem genial de um almoço dado entre os monges da abadia onde se passa a cena e um grupo de representantes do Vaticano (que iria entrar numa disputa teológica com os franciscanos naquele lugar, motivo oficial porque o monge Guilherme "sherlock holmes" de Baskerville foi ao local.

No almoço, servem vinho, porque é na itália. Mas o narrador é Adso de Melk, monge jovem e alemão.

Na descrição do almoço, ele cita o vinho e comenta que, em sua terra, os almoços eram acompanhados de cervejas, fabricada mesmo nos próprios mosteiros.

Quer dizer, Umberto Eco também citou esse detalhe importante... Só não sabia que era tão importante assim...

Tem outra cena interessante que envolve um delírio do Adso, depois de aspirar um incenso tóxico na biblioteca da abadia que é absolutamente muito doido.