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quarta-feira, junho 25, 2008

Sociedade carente de valores públicos

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Li (com atraso), na edição 24 da Revista do Brasil, a entrevista que o Paulinho Donizetti, com colaboração de Xandra Stefanel, fez com a psicanalista Maria Rita Kehl (foto). Gostei especialmente do trecho em que ela afirma, com todas as letras: "A gente está numa sociedade muito carente de valores públicos, em que pouco se faz em nome do bem comum". Por isso, segundo ela, as pessoas acabam priorizando os valores individuais e de seu núcleo familiar conservador - o que explicaria, por exemplo, a indignação pública no caso da morte da menina Isabella Nardoni - que fere as regras de "bom comportamento paterno". Ao mesmo tempo, o debate coletivo sobre violência e segurança (principalmente com a ótica dos menos favorecidos) não interessa a ninguém.

E, a partir da constatação de que as pessoas assimilam cada vez mais conformadas o consumismo e a máxima capitalista "tempo é dinheiro", é possível relacionar várias "doenças sociais" aparentemente desconexas, como depressão e hipocondria, patrulhamento, morbidez, sensacionalismo, sectarismo, impunidade etc. Para mim, tudo isso influi diretamente na atitude política (ou apolítica) que uma pessoa possa assumir (ou se omitir) em uma coletividade. Abaixo, alguns trechos da entrevista de Maria Rita:

Conservadorismo e preconceito
Ser mãe biológica não é garantia de bons sentimentos, mas colocamos a mãe sempre num altar e usamos a madrasta para representar o lado escuro da mãe, desde os contos de fadas. E tem, ainda, um pouco da idéia de que família boa é aquela que tem o pai e a mãe biológicos e os filhos.

Morbidez e indiferença social
Por que quando há um atropelamento a maioria das pessoas pára para olhar? É porque a morte nos fascina. A morte, a violência fascinam, como todos os temas ligados àquilo que é mais reprimido na gente. Mas não há espaço de destaque para o assassinato de criança negra e pobre.

Impunidade e horror ao enfentamento
Basta ver o modo como terminou a ditadura: terminou, terminou, não se fala mais nisso. Não houve pressão para punir os ditadores. Agora acontecem algumas indenizações, mas não houve julgamento. Todo mundo foi perdoado e nem sequer pediu perdão. Nem se dá nome aos responsáveis. O brasileiro tem horror ao enfrentamento do conflito.

Desvalorização do tempo e da vida
É como se a gente tivesse uma urgência temporal que faz com que a vida perca completamente o valor. O tempo da experiência, da reflexão, todo o tempo da chamada vida subjetiva está sendo atropelado pelo tempo do capitalismo. Esse é o primeiro fator da depressão, essa desvalorização do tempo como tempo de vida. (...) Se você negocia a matéria-prima da sua vida, valendo dinheiro, a vida se desvaloriza. Se a vida se desvaloriza, para que viver?

Hipocondria, intolerância e consumismo
As pessoas começam a tomar antidepressivos porque estão numa sociedade que não tolera a tristeza, o abatimento, ou que você não esteja sempre apto a achar que a vida é maravilhosa. (...) O trabalho é cada vez mais competitivo, quanto mais depressa o cara estiver bombando de novo, melhor. E não tem a ver só com trabalho, mas com os imperativos do consumo. É isso que impede que as pessoas tenham o tempo que precisam para se recuperar das quedas, perdas, crises.

Conformismo e vício televisivo
Essa modulação de ritmo, que permite que você tenha em contraposição ao ritmo acelerado do trabalho um tempo do lazer ou do ócio, vai se perdendo. E o que a gente tem como ócio hoje em dia? Deitar no sofá em frente à TV. As pessoas falam: 'Ali eu me desligo'. Mas uma parte está ligada, senão você não ficaria vendo televisão; ficaria ouvindo música ou em silêncio, pensando. A televisão reproduz essa velocidade.

15 comentários:

Nicolau disse...

Muito boa essa entrevista. Gostei muito do trecho:
"Se você negocia a matéria-prima da sua vida, valendo dinheiro, a vida se desvaloriza. Se a vida se desvaloriza, para que viver?"
Uns dias atrás, numa ressaca pesada e tendo que ir trabalhar, me peguei numa reflexão muito parecida sobre o capitalismo, o trabalho e essa coisa toda...

Glauco disse...

A ressaca leva à reflexão?

João Marcus disse...

As indenizações foram concecidas a:
- Pessoas que não tiveram lá tantos problemas com a ditadura, mas mesmo assim ganham quase 20 mil reais por mês de pensão vitalícia. Para mim, todos são aproveitadores, e merecem somente o meu desprezo
- Guerrilheiros terroristas que sequestravam, roubavam e assassinavam, sem o menor remorso. Ainda hoje, sentem um prazer imenso em falar sobre isso. Quase gozam de prazer. Entre eles, muitos, mas muitos políticos e jornalistas.

O brasileiro tem horror ao enfrentamento. Prefere fazer como esses crápulas fizeram: aproveitar para ganhar muito dinheiro em cima. O povo que se dane. Eles querem é ganhar um tutu.

Nicolau disse...

João Marcus, quero que você me cite um caso de assassinato praticado pelos "guerrilheiros terroristas", para ficar nos seus termos. Agora, do outro lado, o lado do Estado, em tese mantenedor dos direitos de toda a população, dá pra citar assassinatos, torturas e desapareecimentos a granel.

Rafael Let's Gol! disse...

Ótima entrevista. As idéias dela fazem muito sentido.

Glauco disse...

Nossa, esse comentário sobre as indenizações é o tipo que dá até desgosto responder...

Maurício disse...

grande maria rita! tanto no pessoal quanto no profissional!

Anselmo disse...

tbem gostei da entrevista. até o meio da segunda página, não sei se pela edição ou por coincidência, tem mais pontos de interrogação nas respostas do que nas perguntas. Seria motivo de orgulho pra mto psicanalista...

piadas à parte, o comentário sobre as indenizações, acho que cada um tem suas opiniões e pode manifestá-las à vontade. mas, antes de qqr juízo sobre se é ou não fascista o comentário, a simples generalização já quebra a seriedade. se for analisar os "guerrilheiros terroristas", eu fico até com uma ponta de medo de contrargumentar e ser enquadrado nessa categoria tbem.

mas isso já é estigma da minha cabeça.

Maurício disse...

ô anselmo, que quié isso, agora tudo é cada um cada um, sua opinião é sua opinião, aonde isso vai chegar!?
pronto, dei bronquinha.
mas realmente não vale a pena polemizar com cachorro morto falastrão.

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