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sábado, agosto 23, 2008

O ouro feminino: um triunfo de renegados

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O jogo estava 24 a 19 para o Brasil. A equipe tinha 4 match points para chegar a uma inédita decisão nas Olimpíadas. De repente, o apagão. A Rússia vence o quarto set e leva a semifinal para o tie-break. De novo, a seleção tem a vantagem. De novo, desperdiça. A Rússia disputa o ouro, enquanto uma perplexa e cabisbaixa equipe não encontra ânimo para obter o bronze.

As críticas chovem. A jovem Mari é taxada de “amarelona”, assim como outras atletas. O treinador José Roberto Guimarães é afrontado, tendo ainda contra si o contraste do novo
pop star do vôlei, o performático e histriônico técnico Bernardinho. E logo os dois teriam um embate público.

Guimarães insinua que a levantadora Fernanda Venturini obedece às instruções de seu marido, e não as suas, repassando informações que seriam do âmbito da equipe feminina. Já o capo da seleção masculina dedica o título à esposa e afirma que ela teria “transformado a história do vôlei feminino no Brasil”.

A inimizade entre os dois estava selada. Pior para Guimarães, já que Bernardinho virou exemplo de sucesso. Bem pago para estrelar campanhas publicitárias de gosto duvidoso e palestras motivacionais para executivos, continuou tendo sucesso à frente da seleção masculina. A seleção feminina também colecionava trunfos, mas o peso de Atenas pairava sobre todo o time. Os homens se tornam campeões mundiais em 2006, e o treinador dedica novamente a conquista a Fernanda.

A derrota no Pan e o fantasma de Fernanda

Nos quatro anos que separaram a Grécia da China, os dois se enfrentaram em partidas válidas pela Superliga feminina, Bernardinho à frente do Rexona e Guimarães comandando o Osasco em 2005. A rivalidade chegava a níveis exorbitantes, tanto que, após uma derrota para o time paulista, o treinador da seleção masculina quebrou a porta de um vestiário do ginásio osasquense. No Mundial feminino, nova derrota para a Rússia.

Veio o Pan, a medalha de ouro para os homens e as mulheres, novamente, ficavam a ver navios com a derrota para Cuba na final. O selo de “amarelão” se consolidava. Como Felipão teve de agüentar o lobby em prol do veterano Romário em 2002, Zé Roberto em 2008 se via às voltas com o fantasma de
Fernanda Venturini. Por obra e graça sabe-se lá de quem, vaza um e-mail pela imprensa onde a levantadora se oferece para voltar a jogar e ir a Pequim.

O técnico não assume um enfrentamento e, em um primeiro momento não descarta a convocação dela, mas no fim não a chama. A titular é Fofão, reserva de Fernanda por dez anos na seleção. Em abril de 2008, o Zé Roberto chama Mari, afastada desde o Pan para “amadurecer”, e traz também de volta a experiente Waleskinha, longe da seleção desde 2006.

Zé Roberto segue longe dos holofotes, e a imprensa chega até mesmo a dizer que a boa fase da seleção feminina deve-se também ao rival Bernardinho, que foi durante sete anos comandante da seleção. Esquecem, porém, o quanto o inverso é tão ou mais verdadeiro, já que Guimarães foi o primeiro técnico brasileiro a conquistar ouro olímpico em esportes coletivos, com a vitória da seleção em 1992. Foi o primeiro a exigir dos atletas
versatilidade de funções, o ataque de todos os lados da quadra, diferenciais em relação às demais equipes. Rompeu justamente com o estigma do “quase”, sedimentando o caminho trilhado por gerações anteriores e pavimentando as futuras conquistas.

E em 23 de agosto de 2008 veio a consagração maior. De novo, o treinador fez história ao obter o primeiro ouro para o Brasil em esportes coletivos femininos, sagrando-se o único técnico a obter o ouro olímpico no vôlei masculino e feminino. E, junto dele, Fofão, a melhor levantadora do torneio, uma ex-reserva que mostrou o quanto soube agarrar a oportunidade que teve. Mari, maior pontuadora naquela semifinal contra a Rússia com incríveis 33 pontos e mesmo assim massacrada, soube dar a volta por cima. Paula Pequeno, que ficou de fora de Atenas por conta de uma ruptura de ligamentos no joelho e depois ficaria afastada em função de uma gravidez, também deu um exemplo de superação, assim como todas as outras que conseguiram afastar o estigma de “amarelão”. Uma seleção que honrou a tradição de ataque do vôlei, mas que tornou o bloqueio uma arma poderosíssima, tanto quanto a defesa. Obra do técnico que, segundo
Carol Gattaz, cortada da seleção antes dos Jogos, “soube administrar egos e vaidades”, além de inovar novamente no aspecto tático. E obra de um grupo que soube suportar críticas e dar a volta por cima, com uma obstinação e frieza de vencedoras.

Que os homens vençam amanhã. Mas as mulheres já são as verdadeiras heroínas dos Jogos de Pequim. E Zé Roberto é o maior técnico da história do vôlei brasileiro.

10 comentários:

fredi disse...

Belo post, antes do meu, Glauco. Por isso vai como comentário mesmo. Não tenho assistido muito Olimpíada por conta do trabalho, mas neste sábado dei uma banana para o resto e fiquei vendo o jogo.

Principalmente porque sou daqueles que aprenderam a adorar vôlei desde os anos 80, quando o Brasil perdia todas para a Rússia no masculino, quando as peruanas ganhavam sempre da gente no feminino. Outros tempos. Depois a rivalidade com a Itália, com Cuba etc.

Prefiro fazer outro recorte, o dos grande jogadores e jogadoras que vi nesses anos e que sempre perderam.

Lembro da Jaqueline, da Vera Mossa, da Isabel. Da geração de prata, dos embates entre Pirelli e Atlântica Boa Vista.

Da primeira vitória em Olimpíada, das tantas derrotas.

Lembro de tanta coisas, que, misturadas ao cansaço da noite maldormida, fizeram ficar emocionado mais que o normal.

Na hora que acabou mudei de canal para ver o que estava falando Luciano do Vale. Apesar de chato, não se pode tirar o mérito de que foi o primeiro a acreditar e investir no vôlei na TV.

Lembro da transmissão do jogo entre Brasil e Rússia no Maracanã, isso mesmo, no gramado do estádio numa noite de chuva. Num jogo que nem deveria ter acontecido porque não havia condições, mas os russos, então campeões mundiais e olímpicos, toparam jogar com todo o risco que quem já deu uns toques ou umas manchetes sabe de que se correm numa quadra improvisada e molhada.

Foi tanta coisa, que o amante de vôlei emocionou-se mais que nas conquistas masculinas. Porque sofri demais contra a Rússia naquela semifinal.

Hoje, até para me consolar, acredito que sem aquela derrota não ganharíamos o ouro.

Por tudo, valeu...
Nossas belas meninas de todas as raças, de todas as cores. Agora, de ouro.

Thalita disse...

Não fazia nem idéia de que a Mari tinha feito 33 pontos naquele jogo. Pra se ter uma idéia, a maior pontuadora do Brasil hoje não passou dos 20 (preguiça de pesquisar o dado correto...).
Isso mostra o quanto esse time é melhor que o de quatro anos atrás, mas também o quanto a Mari foi crucificada. Talvez algumas críticas de fato fossem justas, mas a, digamos, veemência da maioria delas extrapolou o limite do aceitável, mesmo.
Não se pode esquecer também que o vôlei feminino vinha de uma período extremamente turbulento antes de Atenas. Zé Roberto só assumiu o time um ano antes da Olimpíada. Não dá pra fazer milagre sem preparação, né?
Outra coisa que ficou patente nessa olimpíada foi como os atletas que já trabalharam com o Zé Roberto o admiram. Maurício, Tande, Virna... Ser muito competentente e afável ao mesmo tempo rende frutos...
Essa era a medalha que eu mais queria que o Brasil ganhasse em Pequim. Agora, o resultado do masculino importa pouco. O mais legal já veio.

Unknown disse...

No geral, nossa participação foi muito fraca, né? Vamos torcer para que nas próximas o Brasil chegue mais perto do seu potencial.

Warley Morbeck
http://flamengoeternamente.blogspot.com/

Maurício Ayer disse...

bernardinho é uma dessas figuras intragáveis e desnecessárias, que justificam sua truculência com as vitórias que obtêm. e muita gente no brasil, que gostaria muito de poder justificar um poder autoritário do qual fizesse parte, seja ele nacional ou simplesmente exercido na área de serviço de suas casas, levanta a bola desses caras e minimiza seus eventuais fracassos. muitas dessas pessoas compram jornais, outras tantas fazem jornais.
zé roberto é outra categoria de gente e merece todas as homenagens. juntamente com as meninas, que são lindas pelo brilho que têm.

Anônimo disse...

Rapaz, esse post (e seus comentários) fizeram aflorar recordações arrepiantes: anos 80, o nascimento da febre do voleibol no Brasil, Vera Mossa, as rivalidades com Peru e Cuba...

Essa vitória nos Jogos Olímpicos não é obra do acaso. Parece ser um trabalho da Justiça Divina muito bem idealizado para condencorar a vida de três pessoas: Mari, Zé Roberto e Fofão.

Esta última viveu mais de uma década conhecida como a eterna reserva da titular Fernanda Venturini, que era namorada do ex-treinador. E, agora, no alto de seus 38 anos, Fofão mostra que a história do volei feminino seria muito melhor se ela tivesse sido escalada como titular.

Fiz uma homenagem à grande conquista em meu blog:

http://licoesdeviver.blogspot.com/2008/08/o-apogeu-do-voleibol-feminino.html

Marcão disse...

Todos os méritos do mundo para o Zé Roberto, pioneiro no ouro para a equipe masculina e, agora, a feminina. Também me emocionei muito ao ver (e rever) a reação da Fofão na bola fora da gringa, que selou a medalha: ela simplesmente fecha os olhos, paralisada, enquanto a levantadora Fabi pula em seus braços.

Fiquei imaginando quanta coisa não estava passando na mente daquela mulher, que participou de tantos times que bateram na trave, que deve ter agüentado tanto preconceito por ser mulher, negra e esportista nesse país subdesenvolvido.

A reação do Zé Roberto também é forte, mas ele já tinha vivido isso uma vez, em 92. Acho que tem um quê de justiça divina, sim, pois ele foi escanteado pela mídia com a ascenção de Bernardinho. Mas o ouro sepulta essas picuinhas.

Aliás, falando em picuinha, vou contra a voz corrente: para mim, tanto o Zé quanto o Bernardinho são fenomenais, competentes, vencedores, históricos. Mas cada um ao seu modo, com suas particularidades.

A idolatria do estilo Bernardinho é realmente idiota, mas a culpa não é dele. É da mídia, essa fabricante de mitos, exageros e distorções. Sem preferência por ninguém e por nenhum estilo, prezo e respeito muito o que são, o que fazem e o que fizeram tanto o Zé Roberto como o Bernardinho.

Em tempo: não ouvi NINGUÉM, em nenhuma emissora, jornal ou internet, agradecendo a participação decisiva, no pior momento da partida entre Brasil e Estados Unidos, da jogadora Fabiana (não confundir com a baixinha Fabi).

Quando estava 20 a 20 no quarto set (ou 21 a 21, não lembro), num jogo duro, amarrado e com as gringas ameaçando levar a disputa para um perigoso tie break, Fabiana bloqueou duas bolas sozinha e abriu pontos decisivos de vantagem, destruindo as pretensões ianques. Por que ninguém reparou nisso? Parabéns, Fabiana! E parabéns às maravilhosas meninas do vôlei brasileiro!

Marcão disse...

Ps.: Li aí no post sobre "administração das vaidades" e me lembrei do (justo) comentário da Virna, após a partida, ressaltando o trabalho da psicóloga Sâmia Hallage, fundamental para que as meninas superassem o trauma de Atenas. Fica o registro: valeu, Sâmia!

Anselmo disse...

belo post. excelentes comentários que tbem poderiam ser posts.

e viva Fofão, Mari e Zé Roberto Guimarães.

Se o Fredi lembrou do Luciano do Valle, lembro Marco Antonio, que morreu em 2004 acho, que narrava as partidas de menor importância (a maioria portanto) de vôlei e, número 2 que era, deixava semi-finais e finais para o chefe. Foi o único período em que eu acompanhava o esporte, o começo da década de 90.

Unknown disse...

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