Destaques

sábado, novembro 28, 2009

Nojo

Compartilhe no Twitter
Compartilhe no Facebook

Imagine alguém assinar um artigo, texto, seja que nome isso tem, dizendo que ouviu Otávio Frias Filho, o dono da Folha de S.Paulo, numa mesa de bar dizer que teve relações homossexuais na USP quando estudante ou que gostasse de cheirar cocaína em fechamento do jornal...

Alguém publicaria uma escrotice dessas? A Folha publicaria? Seria ouvido o personagem para que se defendesse?

Agora imagine receber um "artigo" de alguém que diz ter ouvido que o presidente da República, quando preso pela ditadura, tentou estuprar um companheiro de cela. Você publicaria sem consultar o acusado? Você publicaria sem checar isso com pessoas que estavam na mesma cela? Com pessoas que participaram do almoço em que o presidente teria dito isso?

Pois a Folha de S.Paulo, jornal que tenho vergonha de um dia ter assinado e lido por mais de uma década, publicou texto de César Benjamim dizendo isso, sem checar com ninguém.

Aqui não vale a desculpa de que o texto é de responsabilidade de quem escreveu. Como jornalista, já tive a oportunidade de mandar textos para a seção de debates do jornal. Eles leem cada linha e, quando não concordam com algo escrito, pedem para mudar.

Não tenha dúvida de que uma decisão dessas, de publicar algo pessoal em relação ao presidente da República, é tomada pelo próprio dono.

Torpe, sei lá que adjetivo usar. O que ficou claro é que caiu de vez a máscara da Folha e de seu diretor, se é que alguém ainda tivesse dúvida sobre seu caráter.

Piora muito o ato de pôr uma informação dessas na assinatura de um colaborador. É covardia, publica e diz que não tem nada a ver com aquilo. E bota isso de contrabando em três páginas de texto sobre o filme recém-lançado com a biografia do presidente.

Não sei mais o que escrever. Só sinto nojo.

3 comentários:

Marcão disse...

Rapaz, bota nojo nisso...

Que baixaria. Simplesmente inacreditavel.

Recebi um telefonema hoje de uma amiga ai do Brasil, que assessora um politico do PT, e ela comentou por alto que ele estava enfurecido com um artigo publicado na (argh) Folha, mas nao entrou em detalhes. Agora entendi o motivo da furia.

Eu nunca assinei a Folha. Mas ja tenho vergonha de ter trabalho la e estou pensando em tirar do curriculo. Queima o filme.

Acompanho o Fredi: QUE NOJO!

Mas o Lula e muito maior que tudo isso.

Glauco disse...

Como estava falando ontem com o Renato e o futepoquense Olavo, a questão é que o Lula pode mesmo ter falado algo parecido. Simplesmente de brincadeira, gozação, como qualquer um fala numa mesa de bar, onde se diz um monte de bobagens ou histórias inventadas para descontrair.

Mas há várias questões por trás disso. Primeiro, a que o Fredi lembrou, a maneira como os jornais tiram a própria responsabilidade ao dizer que o autor do artigo é o verdadeiro responsável. Justamente em uma época em que já se cria no Brasil uma jurisprudência que responsabiliza os donos de blogs por comentários escritos neles. Algo muito mais severo do que acontece em relação aos grandes veículos, como se vê, e absolutamente desproporcional.

De novo, vejo aqui também o perigo de se violar a intimidade de alguém. Uma conversa à toa, uma brincadeira e Cesar Benjamin, desafeto declarado de Lula e candidato a vice de Heloisa Helena em 2006, resolve "revelar" um papo de 15 anos atrás absolutamente descontextualizado. Repito o que já disse do caso do vídeo do Belluzzo: vamos aceitando sempre esse tipo de intimidade exposta, violada, e amanhã qualquer um vai ser considerado culpado por qualquer brincadeira que falou no bar e vai ter que provar que não quis falar sério em uma clara inversão de ônus.

Outro aspecto que o Marcão lembra bem: Lula é maior que tudo isso. É sim e as pesquisas mostram. Mas e quem vier depois dele? Politicamente, para o próprio Lula, é bom ele não agir contra abusos da imprensa (adotando postura distinta a que Obama vem fazendo contra a Fox News, por exemplo). Mas é bom para as instituições? E quem vier depois dele, vai aguentar se sofrer esse assédio que às vezes é criminoso de parte da imprensa? Seria bom se ele agisse dentro daquilo que e lei permite, buscando responsbilizar quem comete calúnia, injúria e difamação (e Lula já foi vítima dos três) e que fosse feita uma discussão mais séria sobre responsabilidade na imprensa.

Nicolau disse...

Negócio absurdo. O Estadão falou com pessoas que estavam na mesma cela no período, entre eles o presidente do PSTU José Maria - que sabemos naõ ser nenhum fã do Lula. Todos negaram que algo assim pudesse ter acontecido.

O Terra Magazine falou com o cineasta Silvio Tendler, que diz que estava na conversa, que a declaração aconteceu, mas que se tratava obviamente de brincadeira do Lula. "Só um débil mental não viu que era piada do Lula", afirma.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4126783-EI6578,00-Tendler+So+um+debil+mental+nao+viu+que+era+piada+do+Lula.html

Isso deixa clara a questão da privacidade levantada pelo Glauco. Não dá pra um jornal do tamanho e peso da Folha bancar um artigo de página inteira acusando o presidente da república de tentativa de estupro com base num comentário feito em ambiente privado. Teriam que acusar muita gente de muita coisa, rapaz. É muita irresponsabilidade, muita filhadaputagem. Realmente, um nojo.