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sábado, outubro 04, 2008

Cachaça na marca da cal

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Um ônibus vindo da estação Barra Funda do metrô para o largo de Pinheiros, às 16h30 de uma quarta-feira. Eu de pé, e dois figuras sentados conversam. Pelo conteúdo, eu presumiria que ambos são trabalhadores da construção civil autônomos, aproveitando o crescimento do setor nos últimos anos. O da janela saca uma garrafinha de plástico, abre, e toma um gole. O do corredor não perdoa:

— É cachaça, né? Já tá tomando uma...

Um olhar híbrido de condenação e iminência de xingamentos múltiplos se dirigiu ao acusador. Depois de alguma insistência, a recusa:

— É água! Sou prevenido.
— Água? É cachaça, vai – devolveu rápido.
— É água. Pra se eu tiver sede no dia. Sou prevenido.
— Mas que sede? Vai tomar água quente aí guardada na bolsa. A geladinha é cinquenta centavos!

O da garrafinha resmungou alguma coisa sobre as formas de manter o líquido fresco, que ele não era rico pra ficar gastando, mas parou ao se dar conta de que o preço era muito baixo.

— Cinquenta centavos? Onde é isso?
— Lá no ponto do ônibus, cinquenta centavos.
— Ih, rapaz, que água é essa? Cê bebe essa água três dias e já era, tá morto.

Aí começou a fazer as contas para provar por a mais be que o vendedor provavelmente comprava água em galão ou sabe-se lá onde e lançava mão de algum tipo de envase artesanal, sem garantias de higiene.

O outro achou graça do prazo de vida que restaria para o bebedor de água e concordou, era melhor comprar na loja, na padaria, onde fosse, porque o risco seria menor. O informal é mais barato, mas pode sair um problema.

Quando parecia que o consenso se aproximava, acho que eles olharam pela janela e viram que o ponto final estava longe. E recomeçaram:

— Tem coisa que não dá — recuou o da garrafa — Lá, do lado de casa, o preço do saco de cal com 20 quilos é cinco e trinta...
— Mas você pede nota fiscal?
— O quê?
— É, você pede nota fiscal? Tem que ser nota fiscal paulista, hein?
— Que... — desdenhou depois de uma pausa — se o cara paga a nota, não chega no preço.
— É, mas aí você tá roubando o dinheiro do... do... lá do governo!
— Mas eles vão roubar mesmo, pelo menos não tenho que ouvir [patrão] dizer que tô passando a mão no material.

E assim, uma leva de gente subiu e me jogou para o fim do coletivo, distante do momento em que a tão profícua conversa chegaria ao futebol. Se bem que é com cal se marca o gramado e, na verdade, os caras podem ser jogadores de futebol de várzea e não construtores autônomos. Vai ver eu que entendi errado.

3 comentários:

Glauco disse...

A opressão do capital levando o trabalhador a sonegar impostos e lesar o Estado.

Marcão disse...

Um dia fui visitar um amigo em Santo Amaro e não sabia em que ponto descer. Perguntei para o cobrador e ele estava tomando uma garrafinha de água mineral, mas, ao me responder, pude comprovar que era, na verdade, da que passarinho não bebe...

Rodrigo Ramos disse...

Essas conversas de ônibus são sensacionais! Foda é que pra ouvir isso temos que ouvir alguns infelizes que não sabem ler as plaquinhas de "proibido o uso de aparelhos sonoros" e nos divertem no coletivo com uma mistura de funk e forró. A trilha sonora ideal pra um longo passeio em pé e espremido.