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quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Ideia de bêbado

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Muita gente que gosta de rock'n'roll torce o nariz para os Beatles, por causa da imagem inicial da banda, certinha, de terno, gravata e aparência de "meninos bons". O que nem sempre é levado em conta é que eles mesmos detestavam aquela imagem falsa e marqueteira, construída cirurgicamente pelo empresário judeu Brian Epstein. Sua primeira exigência, para promovê-los, foi que abandonassem o estilo selvagem de topetes, roupas de couro apertadas, botas de caubói (acima) e comportamento delinquente - como tocar com assentos de privada no pescoço, fumar, beber e imitar gorilas no palco, o que faziam nos cabarés de Hamburgo, na Alemanha. Epstein mandou todos ao alfaiate, para que se vestissem como ele, e chegou ao requinte de exigir que trocassem de marca de cigarro, para uma que não fosse proletária. Pete Best, o baterista na época, recusou-se a cortar o topete e a "se enquadrar". Epstein o substituiu por Ringo Starr com o aval mudo de John Lennon, Paul McCartney e George Harrison.

Porém, depois que eles tomaram o mundo de assalto e ficaram muito mais poderosos do que seu empresário, passaram progressivamente a abandonar o visual "limpinho". A guinada veio em 1967, com o mergulho na psicodelia e nas roupas hippies. Antes disso, porém, a insatisfação com as entediantes e ridículas sessões de fotos promocionais, sempre trajando os odiosos terninhos, já provocava revolta, principalmente em Lennon. Foi por isso que, em 15 de março de 1966, eles chamaram o fotógrafo oficial da banda, Robert Whitaker (o mesmo que faria a célebre capa do LP Sgt.Pepper's Lonely Hearts Club Band), para uma brincadeira que acabaria em grande confusão. Os quatro imaginaram o que fariam se tivessem o poder de planejar, dirigir e executar uma sessão de fotos. O propósito central seria destruir a imagem de "bonitinhos e ingênuos", a partir do choque e do nonsense. Por isso, a sessão foi batizada por eles como "Aventura sonâmbula". Cada um dos quatro sugeriu uma situação para ser registrada, como a da foto acima, em que mostram gomos de linguiça para uma fã assustada.

Mas a ideia de Whitaker, apoiada com gosto por Lennon, foi a mais chocante. Ele sugeriu que os quatro posassem com aventais de açougueiro, segurando pedaços de carne e ossos - e rodeados por bonecas decapitadas, mutiladas e com várias dentaduras e olhos de vidro espalhados (foto à esquerda). Durante muitos anos, especulou-se que isso teria sido feito para provocar a gravadora Capitol, que prensava os discos dos Beatles nos Estados Unidos. Isso porque, em vez de reproduzir fielmente a discografia que saía na Inglaterra, ela mutilava os discos e lançava todo ano dúzias de coletâneas que misturavam músicas de diversas fases, sem o menor critério, para multiplicar a oferta e o lucro. Quando os Beatles pisaram pela primeira vez na terra do Tio Sam, ficaram confusos e indignados com a quantidade de discos deles que nunca tinham visto ou ouvido falar. Lennon, no famoso show no Shea Stadium, em Nova York (agosto de 1965), apresentou assim uma das canções que iam tocar: "Essa é do Beatles 4 ou do Beatles 5, sei lá, não conheço esse disco".

Ou seja: a Capitol fazia um serviço de "açougueira" retalhando a "carne" (obra) da banda de Liverpool - e a sessão de fotos denunciaria sutilmente isso. Segundo o fotógrafo, porém, as imagens foram feitas por brincadeira e não seriam utilizadas como material promocional. Algumas acabaram saindo, discretamente, no verso da capa de algum compacto obscuro ou em revistas sobre música, sem destaque. Mas a bomba explodiu quando, em junho de 1966, algum manguaça teve a brilhante ideia de escolher uma das fotos do "açougue humano" para a capa de mais uma coletânea caça-níqueis da Capitol para o mercado estadunidense, "Yesterday and today". Ao chegar às lojas, a capa (no alto, à direita) provocou forte reação negativa dos consumidores, levando a gravadora a recolher o que pôde e substituir, cinco dias depois, por outra capa, mais comportada (foto de baixo). Hoje, as capas originais, com a carne e as cabeças decapitadas, chegam a ser compradas por até 10 mil dólares (mais de 20 mil reais) por colecionadores de todo o mundo. Pode parecer loucura, mas é um ótimo investimento: a cada década, as raras cópias dobram de preço.

Na época, os Beatles não disseram uma palavra sobre o assunto. Vinte anos depois, Paul McCartney comentou apenas que a carne utilizada na sessão parecia "apetitosa". Passadas quatro décadas, fica a dúvida sobre quem bebeu mais: se Lennon (acima), que incentivou a sessão, se o fotógrafo Whitaker, que teve a ideia do "açougue", ou o manguaça da Capitol que escolheu uma das imagens para capa de disco. Só o que sei é que essa "bebedeira" desaguou numa das maiores ousadias plásticas da história do rock.

11 comentários:

Arvro disse...

E eu acho engraçado o tanto de garoto metal/punk/o caralho-a-4/poser q torce o nariz pros Besouros... taí uma boa história pra contar e acabar com a graça de qualquer "revoltadinho"

Glauco disse...

Acho que o cara que escolheu a foto de capa provavelmente guardou alguns álbuns originais e hoje vive só de revendê-los. Devia ser um manguaça de visão, porque não é possível ser tão sem noção assim.

Victor disse...

Quanto é que valeria essa capa?

Rafael disse...

Mesmo na época dos terninhos Lennon mandou a célebre: "as pessoas nos lugares mais baratos podem aplaudir, o resto de vcs, apenas balancem suas jóias" numa apresentação com a família real britânica presente.

Quanto à essa capa também rolou um boato de que seria um protesto contra alguma guerra da época (Coréia, Vietnã... sei lá) com suas carnificinas.

Muitas histórias rolam.

Mas a verdade é que de certinhos os caras não tinham nada. Mas eu, beatlemaníaco, não estou nem aí pra isso.

Parabéns pelo post.

Nicolau disse...

Rafael, de minha parte, fico mais tranquilo ao saber que eles não eram certinhos, hehe! Um brinde à manguaça criativa!

Marcão disse...

Glauco, sua tese é bem plausível. Descobri que o presidente da Capitaol na época, Alan Livingstone, guardou para si uma caixa com 24 discos com a malfadada capa (19 com som mono, o comum da época, mais 5 em inédito estéreo). Mais tarde, deu de presente a maior parte para seu filho Peter, que, em 1987, vendeu uma cópia estéreo por 2,5 mil dólares e dez cópias mono por 10 mil dólares. Mais tarde, essa cópia em estéreo chegaria a ser comprada por 25 mil dólares e as cópias mono, por 5 mil cada uma. Realmente, sendo ideia de bêbado ou não, rendeu muitos dividendos.

Olha a história aqui:

http://www.eskimo.com/~bpentium/beatles/livleter.htm

olavo disse...

Sensacional é pouco. E o uso da palavra "manguaça" no Futepoca, nesses contextos aleatórios, sempre me faz rir demais.

Anselmo disse...

do topete para a franja para o avental de açougueiro. ótima história.

Rafael disse...

Nicolau,

Entendo o que vc quis dizer. Na verdade acho que todo mundo que curte mesmo os Beatles vai se amarrar mais na fase "psicodélica" da banda e com o "descaralhamento" do que com o "iê, iê, iê" e os terninhos.

Só quis dizer, caso eles fossem mesmos certinhos (no conceito que usamos de 'certinho'), isso não iria mudar o que representam.

Acho, inclusive, que os caras já tinham uma atitude diferente mesmo na época dos terninhos. A entrevista no aeroporto em NY (na primeira passagem dos Beatles pelos EUA) mostra isso.

Reporter: Ringo, por que vc usa tanto anel nos dedos?
Ringo: Porque eu não consegui colocá-los no nariz.

Reporter: Vcs nunca vão cortar os cabelos?
George: Cortei ontem.

Reporter: Podem cantar uma música pra gente?
Uníssono: NÃOOO!!!

Marcão disse...

A essa última pergunta, respondida em uníssono, John Lennon atalhou:

- Precisamos do dinheiro antes.


Outras dessa coletiva:

Repórter - O que vocês fazem entre os shows, no quarto do hotel?
George - Patinação no gelo.

Repórter - George, que história é essa de contrair uma doença por ano?
George - Todo ano eu pego câncer.

Repórter - Como conseguiram chegar à América?
Ringo - Fomos até a Groenlândia e viramos à esquerda.

Repórter - Vocês mencionam Beethoven em uma das músicas. O que acham dele?
Ringo - Adoro. Especialmente seus poemas.

Repórter - Qual o segredo do sucesso de vocês?
John - Se soubéssemos, formaríamos outra banda e seríamos os empresários.

Repórter - Vocês tem alguma mensagem para os Estados Unidos?
Paul - Sim: comprem mais discos dos Beatles!

Repórter - O que irão fazer quando a beatlemania acabar?
John - Contar o dinheiro.

Rafael disse...

HAhaha... pode crer. Nos 2 segundos depois do "NO!!!" rolou um silêncio que parecia ser tornar meio que constrangedor quando John emenda na maior calma:

- We need money first...

Muito show essa coletiva. Tem muita coisa que eu não lembrava. Preciso assistir de novo.