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terça-feira, março 23, 2010

Pelo futebol

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Falar de futebol, hoje, é (deveria ser) falar do Santos. Os santistas Glauco e Olavo se regozijam não apenas com o desempenho do seu time como também com o ímpeto de outras torcidas em criticá-lo. Não há argumentos contra 10 a 0, contra 9 a 1, nem contra séries de 10 vitórias enfrentando times de todos os calibres. Acima de tudo, não há argumentos contra a arquitetura em movimento (música?) dos gols e assistências de Neymar. Dizer que são apenas garotos só amplia a sua glória, ainda mais quando eles não se apequenam diante dos adversários, nem daqueles cuja suposta experiência se traduz apenas em mais peso na botina.

Eu mesmo fiquei espantando vendo são-paulinos e corintianos felizes da vida com a vitória do Palmeiras sobre o Santos. Torcer contra o líder é natural, mas havia algo mais nessa caldeira. Afinal, o que tal imprevisível comunhão está a nos dizer?

Que o Santos está jogando bola de um jeito que nenhum outro time jogou nos últimos anos, e isso incomoda. O Corinthians que venceu o Paulista e a Copa do Brasil era osso duro de roer, principalmente pela solidez de sua defesa e a precisão do toque de bola. Mas dificilmente encantava, salvo pelos arroubos geniais do Gordo, as assistências do Douglas, os petardos de Cristian. O Flamengo que venceu o Brasileiro tinha qualidade, teve momentos geniais, mas sobretudo muita raça. E venceu numa última rodada pra lá de embolada. Não é difícil admitir a vitória do Corinthians ou do Flamengo, pois são times que não destoaram do que tem sido a tônica do futebol mundial.

Mas, no caso do Santos, reconhecer que o esquema ultraofensivo de Dorival Junior está dando certo é engolir em seco anos de futebol travado, de ênfase nos volantes, de medo de jogar aberto e pra frente. É admitir que o futebol pode sim ser ao mesmo tempo bonito, objetivo (ou seja, sem firula) e vencedor. O esforço em denegrir o futebol do Santos é uma estranha forma de dizer que as vitórias de Corinthians e Flamengo foram "dos nossos", do futebol "normal", da "realidade do futebol moderno". Realidade é e sempre será a mais ideológica das palavras.

Em vez de falar mal do Santos – ou da folclórica e ingênua dancinha dos meninos –, os times deveriam empenhar-se seriamente em vencê-lo. Quem quiser provar o seu valor, nesta temporada, terá que vencer o Santos, principalmente em partidas decisivas. Acredito que o Corinthians poderá fazer isso, mas terá que soltar as rédeas do time, com todos os riscos implicados.

Fico pensando se o Timão focasse mais nos seus jovens do que na vovozada experiente e lenta que frequenta o Parque São Jorge. Felipe, Jucilei, Elias, Defederico, Dentinho, Jorge Henrique... este já está chegando nos 30, mas com vigor de moleque. Se em vez de Tcheco trouxesse de volta o Douglas, em vez de Roberto Carlos trouxesse algum jogador mais coordenado... Quer dizer, um time com fome de bola, capitaneado por uma ou duas, no máximo, três figuras mais experientes. Acho que investiríamos no lugar certo, por um futebol digno do nome.

4 comentários:

Marcão disse...

Assino embaixo. Eu tenho mais motivação de assistir a um jogo do Santos, hoje, do que do meu São Paulo (sério mesmo). Tanto que não torci para o Palmeiras no clássico da Vila Belmiro, até lamentei que a molecada não tivesse engrenado novamente no segundo tempo, mal acostumado que estou ficando com os shows sucessivos. O Santos de hoje é a prova de que o futebol arte, o verdadeiro futebol brasileiro, resiste. Paulo Henrique e Neymar são craques e o tal de André ainda vai dar muita dor de cabeça aos goleiros no futuro.

Como o Maurício, também tenho a mesma percepção sobre o São Paulo: a molecada podia ser melhor aproveitada. Fui ao Pacaembu ver a final da Copa São Paulo e fiquei com a impressão de que o tal de Ronieli e o atacante Lucas Gaúcho mereciam ser integrados ao time principal. Tem uns moleques bons nas laterais, também. Acho que alguém poderia recuperar o esquema com pontas e botar a molecada pra correr. Concordo com o Glauco que, mesmo que esse Santos não levante título (o que seria uma injustiça), vai ficar marcado na memória do nosso futebol.

Parabéns ao presidente santista Luís Álvaro, que tive a oportunidade de conhecer lá na Vila, e ao técnico Dorival Júnior. O futebol agradece.

Marcio-SJP disse...

Concordo, tá bonito de ver o Santos jogar...mas, me faz lembrar alguns jogos de Copa do Mundo, onde já tivemos grandes espetaculos de times Africanos!
É ai que mora o perigo, será que vai acontecer com o Santos o mesmo que aconteceu com as seleções Africanas?

Só saberemos nas fases finais se os garotos aguentam o tranco!

Leandro disse...

Como não poderia deixar de ser, estou de acordo quanto a praticamente tudo que desta postagem consta, não só quanto ao Santos mas também quanto ao Corinthians, fazendo, contudo, a singela ressalva de que o confronto entre os alvinegros paulistas ocorrido na Vila há poucos dias poderia ter tido outro desfecho em condições normais de jogo.

Mas isto não tira a possibilidade do Santos, num eventual confronto nas semifinais, ou então no Brasileirão, sapecar uma goleada na retranca do Sr. Mano Meneses.

E por falar nisso, incrivelmente, veio do folclórico Chico Lang, na noite de domingo, uma das constatações mais acertadas, no meu ponto de vista, ao comparar o futebol do atual campeão paulista e do Brasil com o do grande candidato a estes dois títulos no ano de 2010.

Para Chico Lang, o araraquarense Dorival Junior tem resgatado uma característica do futebol paulista que andava perdida com a massiva importação de técnicos de outras regiões, que trouxeram suas concepções de futebol para as terras bandeirantes. O sucesso ou relativo sucesso recente de técnicos gaúchos como Scolari, Adenor “Tite” Bacchi, Celso Roth e do próprio Mano teria engessando o “modus operandi” dos times daqui. Quer me parecer que o analista(?) do Mesa Redonda acertou neste ponto.

E mesmo ponderando que o futebol paulista nunca teve a exuberância que caracterizou a escola carioca nas últimas décadas, Chico propôs esta reflexão que eu reputo bastante oportuna, pois está claro que o gaúcho Mano jamais imprimiria uma característica mais ofensiva ao time, ainda que contasse com elencos como o da Democracia dos anos 80, o de 99/00 ou até com aquele time do discreto e cerebral carioca(?) Carlos Alberto Parreira, que teve bastante êxito enquanto contou com Ricardinheirinho e mesmo algum sucesso sem este, a ponto de reconduzi-lo à seleção.

Há mais de um ano que eu venho choramingando a forma dissoluta do time de Mano se postar (e se portar), mesmo com os títulos que vieram, e fico na torcida de que o retorno de técnicos paulistas e das idéias por eles trazidas possa tornar o futebol destas bandas algo mais interessante que o "mais do mesmo" que dominou os últimos anos de triunfos de Scolari e de seus genéricos com cuia de chimarrão embaixo do braço.

A algum gaúcho que possa se ofender com o que disse Chico e eu reproduzo aqui noutras palavras, vale dizer que estas constatações não querem fomentar qualquer rompante de bairrismo xenofóbico, mas também vale lembrar, até para ilustrar o raciocínio "chicolangueano", que os dois grandes times da história do Internacional, por exemplo, foram montados não por gaúchos, mas por paulistas. O sensacional time de 75/76 por Minelli, e o de 05/06, mais sóbrio, é verdade, por Murici Ramalho.

Então, técnicos paulistas, “Pro São Paulo fiat eximia”. Digo: “Pro bom futebol, fiant eximia”, e de preferência,“Pro Corinthians fiant eximia”.

Nicolau disse...

Assino embaixo a demanda por um fetebol mais pra frente, corajoso. Mas não acho que é a idade dos caras que conta, Maurício, mas o estilo de jogo mesmo. Até porque, dos que você citou, só o Defederico não está entre os titulares (considerando que estes sejam os que jogam na Libertadores). Trocar o Tcheco pelo Boquita no time titular não vai ajudar necessariamente na ofensividade do time, por exemplo.

Agora, quem sai pra entrar Defederico? O meia velho (Tcheco ou Danilo) ou o volante Ralph? Se tirar o volante, quem cobre o Roberto Carlos, que está cada vez melhor no ataque? Não to cobrando respostas de fato, que são responsabilidade do Mano Menezes. Mas acho sempre legal pirar nas escalações. Uma proposta é fazer mais ou menos a formação do ano passado, com o argentino no meio. Mas ele não vai correr atrás de volante como Douglas fazia, acho que pra render teria que jogar e solto perto do atacante. Elias e Jucilei de volantes dão conta? Pode ser. Marca a saída de bola e vamos ver o que acontece, hehe.

Num assunto paralelo, o Santos parece ter um foco interessante nas categorias de base pra formar atacantes rápidos. No time do Corinthains da Copa SP desse ano tinha um tal de Elias com essas características, vindo da base do Santos.