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quinta-feira, maio 07, 2009

O bom Corinthians - e o bom corintiano

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Mais uma vez, Ronaldo Nazário calou a boca dos críticos e classificou o Corinthians para as quartas-de-final da Copa do Brasil, marcando os dois gols da vitória sobre o Atlético-PR. Mas o post não é sobre a partida, deixemos a função com o Nivaldo e o DeMarcelo. Narro aqui a forma como vi (ou quase) o jogo. Eram sete e meia da noite quando a fome bateu, pois não tinha almoçado, e resolvi gastar meus únicos dez reais num salgado ou cachorro quente. Quando me encaminhava para a porta, o dono do apartamento entrou, esbaforido, e intimou:

- E aí, véio pinguço, vamo bebê? - e já foi sacando uma garrafa de vinho.

Buenas, desisti do cachorro quente e busquei o saca rolhas. O manguaça voltava de uma aula particular de latim (estudo necessário para seu trabalho de mestrado) e contou várias coisas interessantes que, posteriormente, pretendo reproduzir aqui no blogue. Mas, como era de se esperar, a garrafa não durou 50 minutos. Resolvemos descer para buscar mais uma "ampôla" e, no caminho, eu tentaria comer um salgado ou o que quer que fosse. Quando saímos do prédio na calçada da Avenida Paulista, porém, uma enxurrada de corintianos descia em direção ao Pacaembu.

- Ê, véio, que zona é essa? Tem jogo hoje? - perguntou o manguaça, que, apesar de ser corintiano, consegue ser mais alheio e desinformado de futebol do que eu.

- Tem sim, palestino. O Corinthians precisa só de um gol pra seguir na Copa do Brasil.

- Ah, então a gente tem que ver esse jogo! E comprar duas garrafas, não uma! Quanto cê tem aí?

Me lembrei do vinho de mesa argentino Santa Ana (foto), honesto, por R$ 9,88, e dei adeus aos projetos alimentícios. Mas fiquei me perguntando em que raio de lugar a gente ia assistir esse jogo, pois não há televisão no apartamento. Ou melhor, tem, mas está enconstada num canto, empoeirada e abandonada há séculos. Não perguntei nada: compramos as garrafas, um maço de cigarro e rumamos pra casa.

- Agora é rezar pra essa porcaria funcionar, senão a gente escuta pelo rádio - comentou o manguaça, dirigindo-se para o desgastado aparelho, que, de tão velho, é daqueles que tinham uma abertura para fita VHS, um videocassete acoplado (como a da foto à direita). Uma relíquia dispensada ali por algum habitante longínquo daquele apartamento, que chamamos hoje de "Lar de Repouso José de Anchieta", acostumados que estamos com nossa decrepitude.

Pensei que a televisão ia explodir assim que fosse ligado na tomada, mas resistiu bem e, ao toque do botão, apareceu uma mancha azulada no centro da tela, o negócio deu três engasgadas e apareceu uma imagem do Pacaembu bem chuviscada, em branco e preto e sem som. Dane-se, já era um milagre! O corintiano ainda tentou melhorar a coisa mas, a cada vez que mexia nos botões de troca de canal, a imagem sumia, o espectro azulado voltava e, dois minutos depois, ressurgia a chuvisqueira. Resolvemos deixar como estava. No mais, tínhamos som "ao vivo", pois a gritaria da torcida, no Pacaembu, chegava até o recinto como se estivesse a uma quadra dali.

Mas não deu nem dez minutos de jogo (ou do que conseguíamos enxergar dele) para que o papo regado a vinho fosse retomado - e a TV, ignorada. O corintiano não tava nem aí pra coisa. Bebemos, fumamos, contamos nossos causos e, quando vimos, o jogo já tava no segundo tempo. Nisso, o manguaça levantou pra ir à cozinha ou ao banheiro e eu pude prestar atenção nuns dois ou três minutos de jogo. Vi o camisa 7 do Atlético-PR perder um gol incrível, na pequena área, e pensei que, se tivesse assistindo o jogo no Minhoca's, a bola teria entrado. Mas, na sequência, o Corinthians engatou um ataque e eu pensei, involuntariamente: "-Vai ser gol. E o palestino nem vai ver". Dito e feito: houve um passe até a entrada da grande área, um jogador corintiano dominou, cortou o zagueiro e bateu no canto. Não dava pra identificá-lo, mas, no momento em que deram um close no Ronaldo comemorando, o manguaça voltou pra sala e perguntou, espantado:

- Foi gol do Timão? Gol do gordo? - repetia, atônito.

- Foi sim. Filhodaputa, esse cara é foda! - respondi, resignado.

O corintiano não gritou, não comemorou e nem esboçou reação. Permanceu abismado, com os olhos esbugalhados, sem dizer palavra. E, pouco depois, o gordo sofreu um pênalti e marcou mais um gol, numa paradinha humilhante. Matei o último copo de vinho, apaguei o último cigarro e me despedi do manguaça.

- Vou dormir, véio. Fica aí com teu time, que tá jogando muito bem, e com o Ronaldo, que é mesmo "o cara".

Foi então que, mesmo antes do apito final, a TV enguiçou, o espectro azulado voltou na tela e o corintiano despertou do transe hipnótico.

- Vai, véio, vai dormir. E vaaaaiiii Curíntiaaaaaaaa!!!

Pois é. Se continuar jogando desse jeito, o Corinthians vai mesmo. Os adversários que se cuidem. E o meu fígado que segure as pontas...

16 comentários:

Olavo Soares disse...

Mais um épico da "Marcão Produções". Sensacional...

Glauco disse...

Belo exemplo de convivência pacífica entre rivais.

Maurício disse...

Sensacional, mesmo. Grande Marcão!

Só espero que a sua última profecia se realize. E vou mandar enterrar um pombo morto na porta do Minhoca's.

Eu, na verdade, abdico do meu direito ou declino de meu dever de contar o jogo, pois estava tão bêbado e sonado que não seria capaz de opinar sobre nada, pois não lembro de muita coisa.

Vai Curíntia!

Nicolau disse...

Bela história, Marcão. Sobre o jogo, peço desculpas por não ter escrito, vi num boteco mais batendo papo que outra coisa. Mas fiquei preocupado no primeiro tempo com a demora para sair gols. O Jorge Henrique perdeu um quase imperdível (isso eu vi) e o André Santos (esse eu só li em algum canto) perdeu outra boa chance. O Atlético estava retraído, buscando o contra-ataque, e quase conseguiu em dois momentos com Wallyson. Mas Ronaldo inventou um chute e um gol e forçou um penalti, o quarto em quatro jogos da Copa do Brasil - menos mandrake que os outros, mas ainda assim duvidoso. Enfim, viva o Gordo!

fredi disse...

Nivaldo, o Gordo não forçou o pênalti, mas sim "cavou" mais um.

Só A ESPN teve coragem de dizer que não foi

fredi disse...

Belo texto, Marcão, mas vc precisa se alimentar, camarada.

Dizer que o Santa Ana é honesto, aí meu Deus.

Sorte vc ter o fígado que tem.

Abraço

Anônimo disse...

"Só A ESPN teve coragem de dizer que não foi"

Fredi, eu acharia estranho se o pessoal da ESPN (Empresa São Paulina de Notícias) tivesse dito que tinha sido penalti. O emissorazinha anticorintiana do inferno.

fredi disse...

Não costumo argumentar com anônimos, mas você jura pela sua mãe que não foi cavado?

Anônimo disse...

Juro. E para mim os dois jogadores que foram em cima do Ronaldo fizeram falta. E tem ainda o puxão na camisa do Ronaldo em cima da linha da área, logo no início do 2º tempo que o juiz não marcou nada e ninguém está reclamando.
E quanto ao anonimato, é uma opção que o próprio sistema de comentários e de identifcação do blog permite. Não vejo nada demais nisso. É melhor usar o Anônimo do que um fake qualquer. E não é por causa disso (anonimato) que uma opinião deve valer mais ou menos do que outra, ou pior ainda, ser desconsiderada.
Muito bom este blog, leio todos os dias.
Abraços.

Glauco disse...

Pra mim não foi pênalti e o Atlético teve uma penalidade não marcada a seu favor noiníco do jogo. E isso até jornalistas da TV Gordo, ops, Globo, reconheceram (senão alguém vai dizer que é coisa da "sãopaulina" ESPN... ah, as paranoias...).

Fabricio disse...

Sabe porque acho que não foi penalty? Porque se fosse outro jogador ninguém daria.

fredi disse...

Anônimo, obrigado por ler o Futepoca.

Realmente é opção ser anônimo, mas normalmente quem escreve e comenta por aqui costuma botar a cara, mas tudo bem...

Sobre ser pênalti, continuo achando que não foi porque a definição de falta é usar força capaz de obstruir ou derrubar o adversário, não foi o caso.
Houve choque, mas o Ronaldo não caiu por conta da ação do jogador do Atlético-PR.

Dizer que a ESPN é são-paulina é bobagem. Há torcedores de todos os times ali. A diferença é que não fica como a Globo puxando o s... de Corinthians e Flamengo toda hora.

Melhor, não ficam transformando o gorducho em herói nacional (ops, transformando não é uma boa palavra perto do gordo)...

Marcão disse...

Quando o Ronaldo pisou no André Dias e não foi expulso, o Arnaldo César Coelho disse que tratava-se de uma "circunstância especial". Creio que a marcação do pênalti sobre ele foi mais uma dessas "situações personalizadas".

Nicolau disse...

Bom, eu achei um penalti meio picareta, como já disse, mas acho que foi. Para não dizer que eu, a TV Gordo (sic) e a ESPN falamos sozinhos, o Mauro Beting também diz que marcaria a penalidade. Mas critérios e análises todo mundo tem. Enfim, 1 a 0 também classificava.

Fernando Romano Menezes disse...

Foi pênalti. Revejam o lance e notem a perna direita do zagueiro nº 15 do Atlético segurando a canela direita do Ronaldo. Com o outro zagueiro do lado impedindo a passagem do gordômeno, ou ele tropeçava e caía ou caía direto. Isso na área, é pênalti. E parabéns a todos do Futepoca.

Rui de Castro disse...

Belo texto, Marcão. Sou corintiano, mas ando preferindo mais uma garrafa de vinho. Valeu pela dica. O Santa Ana já vai pra geladeira.