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quinta-feira, julho 02, 2009

Irmão da opa

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Para poder pensar em alguma que não fossem os fogos de artifício e os gritos da vizinhança corintiana feliz e satisfeita, pensei em manguaça. Não em beber, mas no termo, sua origem, seu uso.

A palavra consta do Vocabulário Ortográfico da Lìngua Portuguesa, mas não do Houaiss. Tentei então buscar sinônimos de "cachaça" e "bebida", além de "bêbado" e "beberrão" no referido dicionário, já que parte dos termos aplicados a um são metonimicamente transpostos a outros. Não encontrei a resposta à arguição que me mobilizou. Porém, na divertidíssima lista, consta um que motiva este post: irmão-da-opa.

Uma ampla pesquisa (via Google, claro) se iniciou até encontrar uma versão no Scribd de O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice Reis, publicação editada pelo combalido Senado Federal sob a presidência de Antonio Carlos Magalhães em 2000, em meio às comemorações dos 500 anos da chegada de Pedro Alvares Cabral ao Brasil.

É a maior concentração do termo "irmão da opa" e suas variações que pode existir numa obra, muito instrutiva em outros assuntos também.

Ao descrever o centro da capital, Luís Edmundo apresenta uma procissão. "Acompanhando a multidão bulhenta, desecabrestada e feliz, dobramos a Rua de S. Pedro para esperar, no canto da Candelária, o Santo Viático que marcha. Acompanha-o uma multidão enorme e respeitosa em massa de muitos metros. À frente do bando está o andador da irmandade, de opa, e tocha na mão esquerda, noutra a campainha colossal erguida no ar tranquilo em toques ritmados."

Foto: Reprodução de tela de José Washt Rodrigues
Mais adiante, mais explicações. "(...) Há o irmão da opa. Pelas ruas centrais, de balandraus vistosos e coloridos, nas mãos ávidas, pires, sacos, sacolas ou bacias de prata, andam rapagões válidos e corados, pedindo uns para a cera do Santíssimo, outros para a missa das almas, para o conserto de igrejas velhas, para a construção de capelas novas... São os irmãos pedintes, os opas, que não alardeiam as rendas que possuem, ganhas no estranho ofício só para que se lhes corte a grande pepineira. (...) Não há quem deixe de atender à voz insistente do opa, que a todos cerca pela esquerda, pela direita, pela frente, por detrás"

A ideia é que o pedido de esmolas para a "irmandade" ou para a causa nobre que fosse apresentada no discurso fosse, na prática, destinada à tabacaria ou o bar. O "Opa" era a interjeição usada para iniciar o pedido de uma ajuda.

Apesar da origem elitista que atribui à própria condição de pobreza toda responsabilidade por sua manutenção, além de generalizar como universais a realidade de alcoofilos, há espaço para uma ressignificação.

Os ébrios se irmanam no bar. Fazem-no pelo consumo daquela que matou o guarda em doses nada homeopáticas e pelo estado em que se encontram. Os estratagemas para se atraiar a atenção de garçons mais explorados e sobrecarregados são múltiplos, mas será que haveria algum código nas tabernas.

O "opa" de pedido de mais uma ao garçom ou no telefonema para mandar vir meia dúzia cria uma irmandade toda nova. Em uma embriaguez talvez mais democrática.

5 comentários:

Glauco disse...

Essa é uma irmandade sem restrições e aberta, a do "opa" atual. Mas será que isso tem relação também com o brinde grego visto em películas como Casamento Grego em que, depois de entornar uma danada típica, os bebedores gritam "opa". Seria o "opa" uma forma de ligação etílica entre civilizações e culturas diferentes?

Anselmo disse...

provavelmente.

seria importante os órgãos de fomento à pesquisa financiarem uma viagem ao mundo para testar o "opa" enquanto saudação pró-manguaça.

Nicolau disse...

Bela idéia de pesquisa (e bela pesquisa em si a do post)! Sou candidato a viajante. Opa, irmãos!

Maurício disse...

Opa, meu Timão, bora beber!

Marcão disse...

Por ter passado longo período alijado da internet em meados do ano passado, lá em Dublin, deixei de ler e comentar excelentes posts como esse - que agora estou procurando recuperar. Isso explica o comentário com atraso de 8 meses:

Estou lendo sobre os costumes da côrte portuguesa no Brasil, no início do século XIX, e o catolicismo medieval, conservador e anacrônico era uma das características que diferenciavam o país ibérico do resto da Europa.

Desse "irmão do opa" nunca tinha ouvido falar, mas surpreende pelo fato de que pedia. E pedia no bar! Com certeza, essa prática foi transmitida de forma inconsciente por gerações até nossas interjeições telefônicas para o suprimento de cerveja.

No mais, só lembrando que opa, em alemão, é avô:

http://www.futepoca.com.br/2008/03/opa-cerveja-que-j-seu-prprio-chamado.html

E que, entre nós, provavelmente derivou da mais portuguesa das exclamações, "- Ó, pá", que vem de "- Ó, patrício!".

Mas nada disso impedirá que, no futuro, os arqueólogos que pesquisarem as origens da "irmandade opa" do início do século XXI encontrem alguns aparelhos de telefone com estranhas etiquetas de insetos voadores e descubram que, em butantanês arcaico, "opa" significava "Palavra de ordem dos que recorriam aos favores do sítio de moscas para suprir o líquido sagrado".

Opa! Viajei! É a ressaca...