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sábado, julho 11, 2009

O Gordo como líder (não só de audiência)

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O Corinthians anda tão comentado, mas tão comentado, que parece que qualquer coisa que se diga a seu respeito já foi dito antes. Essa síndrome de tard venus (os que chegaram tarde demais), para usar uma expressão cara a Nietzsche, acaba nos condenando, a nós corintianos, às simples manifestações emotivas, seja na derrota (sai zica, já passou!), seja nas vitórias que agora se acumulam. Gritar "é campeão!" é sempre original, sempre único, sempre a primeira vez, não importa quantos milhões façam o mesmo, nunca é uma repetição de um gesto, é sim a refundação de um mito.

Mas, tirando esses momentos, parece difícil dizer algo que valha a pena em meio a tamanha saturação de informações. Resta-nos, talvez, a contra-informação, ou a contra-opinião, contra-análise. Quer dizer, dar um passo atrás, e gastar algum tempo observando a apressada circulação de um falatório sem fim, ressalvadas as dignas exceções. E a presença de Ronaldo agrava terrivelmente o quadro. Pois aí, além de tudo, tem a Globo rasgando elogios independente do que o Gordo faça.

Quando o Gordo de fato se mostra genial, aí haja paciência, como no último jogo contra o Fluminense. É tamanho bombardeio que nem dá vontade de comentar. O único que consegue dividir um pouco dos elogios é o Felipe. Afinal, são os dois que fazem milagre no Corinthians. Todo o restante, que é resultado de um excelente trabalho coletivo, com a liderança de Mano Menezes, um trabalho com foco, aparentemente sem (muita) ingerência da diretoria, passa como um detalhe ofuscado pelo principal: o Corinthians tem Ronaldo.

A parte isso, o que queria apontar é que parece que Ronaldo está mesmo querendo assumir o papel de líder do time. Isso significa que, além de falar mais besteira para a imprensa (há um custo a se pagar...), ele começa a chamar para si a responsabilidade não só na hora do gol, mas na condução do time durante o campeonato. A situação é interessante. Que eu me lembre, Ronaldo, mesmo na época em que foi eleito melhor jogador do mundo, nunca chegou a ser o líder natural de qualquer equipe. Nunca se cogitou dar a ele uma faixa de capitão. Sempre houve um Dunga, um Zidane ou um Rivaldo como referência de respeito em campo. Ronaldo sempre teve a verve de "fenômeno" mesmo, o moleque que irrompe com o inesperado, mas nunca foi visto como um homem, com maturidade para ser referência de estabilidade no time. Ronaldo começou a se equilibrar melhor com sua pança, e voltou a fazer jogadas geniais. Mas também está mais tranquilo na condição de cervejeiro, mais bem resolvido com seu "jeito de ser" (por assim dizer). Agora é observar a evolução dele no novo posto de cabeça da equipe.



De cara, ele acertou ao pedir ao time, logo depois da consquista do Tri da Copa do Brasil, que mantivesse a seriedade mas que jogasse "com mais alegria". E o que me impressiona é sua sensibilidade para aquilo que realmente falta hoje ao Corinthians. Caracterizado como um time "frio", o Timão joga com uma estabilidade impressionante – irritante para os adversários, não tenho dúvida –, mas falta vibração. E o que é o Timão sem vibração? Há aí um ganho, sem dúvida, que pode ser importante para fazer uma boa campanha no Brasileiro. O Corinthians é o time acostumado com os altos e baixos, com as decisões dramáticas, mesmo quando pareciam fáceis, com o estigma de que para nós "sempre é mais difícil". Se agora o time parece pender para o outro extremo, seus jogadores têm cara de Corinthians, e então é preciso dialeticamente encontrar um novo molho, com "tranquilidade e alegria", como quer Ronaldo, ou com uma inusitada síntese de "frieza e vibração". Isso sim dá jogo, e do bom.

Corinthians contra o povão

Será que os braços dados entre diretoria (que não paga ingresso) e torcidas organizadas (que não pagam ingresso) vão bastar para manter os ingressos absurdamente caros, tirando o sangue do torcedor comum e mantendo estádios sempre meio vazios? Por que será que a Globo transmitiu para São Paulo um jogo do Corinthians em pleno Pacaembu, quando estava acontecendo simultaneamente uma final de Libertadores? Mais gente em casa e Ronaldo em campo não seria uma situação ideal para certos interesses?

Resumindo, minha questão: o Corinthians vai ser o primeiro time brasileiro a expulsar o povão dos estádios, tal como aconteceu em outros países? Como a Inglaterra, mas lá as organizadas (violentas) também dançaram...

4 comentários:

Leandro disse...

Mesmo com 32 anos nas costas e com toda a fama mundo afora, acho que há outros nomes no time que representam o chamado líder "natural", até porque, conforme já escrevi aqui, Ronaldo não é tão inteligente e articulado sem a bola nos pés para ser a voz do grupo nos bastidores, perante o trio de arbitragem e a imprensa, anticorinthiana ou não.
Quanto a não ter passado a final da Libertadores para SP, ainda não caiu a ficha de muita gente a respeito do país ser um continente (olha o clichê) onde um jogo de determinado time não vai interessar exatamente a todos os brasileiros.
Não tenho absolutamente nada contra o Cruzeiro ou contra os mineiros em geral, mas também não caio no lugar-comum de que seja o Brasil na Libertadores contra os argentinos vilões.
Além disso, como torcedor é claro que um jogo do meu time sempre me interessará mais, num embate interessante contra um bom time do RJ, e também não consigo ver no Corinthians alguma culpa no fato da CBF e da Rede Bobo terem mudado a data, coisa que resultou no próprio Corinthians como maior prejudicado do ponto de vista desportivo, diga-se, pois viria embalado no domingo pelo título de 4ª contra o Inter, mas a desacelerada que deu nos últimos dias quase atrapalha. Tirou o foco com tanta festa, homenagens e entrevistas, e ainda vai fazer o time cansado pegar o Grêmio inteirinho na outra rodada.
Dentro deste raciocínio, tenho que dizer, ainda, que sou indiferente a quem seja o campeão da Libertadores de agora, da mesma forma que todo o país era indiferente ao torneio em si até uns quinze anos atrás, ante de virar moda por aqui, quando a maior parte das equipes brasileiras jogava até com reservas.
E do ponto de vista do subjetivo interesse por um jogo ou outro, diria que decisão legal mesmo eu perdi domingo passado: o último jogo do campeonato argentino num duelo direto entre 1º e 2º colocados. Não vi porque nossa mídia esportiva colonizada prefere empurrar chatices dominicais do tipo Milan x Genoa, Barcelona x Huelva, Arsenal x West Ham, etc. A diferença (e incoerência), é que nestes casos ninguém reclama, pois não tem o "diabólico" Corinthians no meio.

Fabricio disse...

"o estigma de que para nós "sempre é mais difícil"."

Essa é a maior mentira do futebol brasileiro, me desculpem.

Felipe Carrilho disse...

Bela análise, Maurício,

Um perigo de toda essa repercussão exagerada em relação ao Ronaldo e ao Corinthians é o time deixar de ser "frio" para ser indolente, ou indiferente.

O aparente silêncio das organizadas em relação aos abusivos preços dos ingressos é preocupante. Onde há fumaça, há fogo, para usar um chavão.

Abraço.

Maurício disse...

Caro Leandro,
Estamos de acordo em muitos pontos.

Essa história toda em relação ao Ronaldo como líder é em reação ao que ele parece estar começando a manifestar. Também não acho que ele seja um líder natural de nada. Ele aliás deve ser um cara muito fácil de lidar, pois aparentemente não disputa liderança, não é um cara que disputa poder. Com tudo isso, acredito que ele possa exercer algum tipo de liderança no time. Talvez sem ameaçar outros líderes como Chicão e William.

O que quero reiterar, no entanto, é que não é fácil engolir essa postura da administração que põe na conta do torcedor boa parte de seus custos. Não sei o que você acha disso. Então pra mim faz todo sentido essa combinação ingresso caro, diretoria que não deixou de ser populista, embora com alguma cautela, e apoio da Globo.

Culpa do Corinthians? Acho que devemos separar as coisas. O Corinthians é uma diretoria, é uma determinada mística na qual o torcedor se reconhece, são suas torcidas organizadas, em particular a Gaviões, é o torcedor comum... O que falta é que nós torcedores comuns – individual ou coletivamente – tenhamos o devido distanciamento crítico em relação às outras instâncias que formam o Corinthians, para não termos necessariamente que defender o nome "Corinthians" quando o que está em questão é uma diretoria ou um certo grupo de torcedores, etc. etc.