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segunda-feira, março 16, 2009

No soccer for old men

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Quem assistiu ao filme Onde os fracos não têm vez, obra interessantíssima cujo título original é No country for old men (algo como “Não há país para os homens velhos”) pôde partilhar da aflição do personagem principal vivido por Tommy Lee Jones. Na película, o velho xerife sofre pra se adaptar a novos tempos (simbolizados pela Era Reagan, o início da consolidação do neoliberalismo) em que o dinheiro passa a ser absoluto e os antigos valores já parecem incompreensíveis para a maioria.

Ontem, no Pacaembu, um homem padecia de um incômodo semelhante ao do personagem ficcional. Aplaudido pela torcida adversária, do time que o projetou, e rejeitado pela diretoria desse mesmo clube, que lhe negou a chance de uma sonhada e digna aposentadoria, ele parecia pouco confortável em campo. Retribuiu timidamente aos afagos dos alvinegros, que gritaram seu nome e colocaram no estádio faixas que diziam “Giovanni, ídolo eterno”.

Fotomontagem sobre foto de André Lessa/Agência Estado e divulgação

Provavelmente, na cabeça dele passavam imagens como a do treinador que o escorraçou da Vila Belmiro há três anos. Nada mais simbólico, aliás, que seu algoz fosse o representante máximo do “novo” futebol brasileiro. O apologista do “profissionalismo” no esporte, o mesmo que deixou o Santos por três vezes para lucrar mais em outro lugar e para o qual o sentido de profissão não tem nada a ver com vocação, entrega, amor ou qualquer tipo de sentimento ou ideologia. Tem a ver com cifrões. E este é até hoje bem quisto pela diretoria do clube que lida tão mal com os mesmos cifrões. Giovanni não.

Jogo em andamento, o dez recebe a bola e a toca com a classe de sempre. Mas vai tocá-la para quem? Seu time, lanterna do campeonato, é lamentável. Ele está ali porque um amigo seu, Rivaldo, hoje está à frente do Mogi Mirim. Outro valor raro no futebol atual, a amizade, trouxe Giovanni a uma equipe que nem de longe está à altura da sua história.

Mas ele tenta jogar, se concentra na partida e chega a parecer ter raiva durante parte dos 90 minutos. Talvez seja a forma de se isolar de todo o clima de reverência e das lembranças de uma peleja inesquecível da qual foi o astro naquele mesmo palco. A certa altura, faz falta no jovem Paulo Henrique, meia trazido por ele mesmo à Vila Belmiro, como mais uma prova de afeto do ídolo ao time. Como se precisasse. E pensar que outros trouxeram para o Santos nomes como André Belezinha, Galvão, Magno e mancharam a camisa dez  ao entregá-la para um zagueiro medíocre, sem história no clube, e que na semana seguinte já trabalhava em um rival.

Ironicamente, é o garoto Paulo Henrique que abre o placar no segundo tempo contra a equipe em que o Giovanni joga. O dez ainda veria outro garoto, o cada vez mais promissor Neymar , marcar seu primeiro gol em sua terceira partida como profissional. Provavelmente um momento histórico, embora até mesmo seu significado será medido pela exposição midiática que vai ter. Quanto mais mídia, mais “histórico”o momento. Novos tempos.

O jogo termina, 3 a 0. O craque sai cabisbaixo do campo, talvez com a sensação de incompreensão em relação a essa época em que se pede tanto amor à camisa mas, quando alguém o manifesta, é ignorado por quem manda no futebol. No meio do caminho para o vestiário, seu trajeto é interrompido por um moleque que deixa de lado uma entrevista para a TV e corre para abraçar seu ídolo.

- Você jogou pra caralho - diz, parabenizando Neymar.

A imagem deixa a impressão de que, se o futebol dito moderno condena craques como Giovanni, ainda há lugar para eles não só na mente dos torcedores, mas também em garotos como Neymar, que ainda teimam em fazer do futebol um esporte menos previsível. Como era em outros tempos.

10 comentários:

Marcão disse...

Excelente texto. Parabéns, Glauco. Parabéns, Giovanni.

Olavo Soares disse...

Belíssimo texto, cara!

Viva Giovanni, viva Neymar, viva o Santos!

Nicolau disse...

Muito bonito o texto, Glauco, parabéns!

Maurício disse...

O Giovanni foi talvez o maior craque que eu vi jogar, desde o Zico. Esperemos que o Neymar o iguale ou supere, e que seja tratado com maior justiça.

Renato K. disse...

Só não direi que o Giovanni foi o maior camisa 10 do Santos depois de Pelé porque também houve Aílton Lyra e Pita, daí a parada é dura ... Mas foi um cracaço, e é triste vê-lo hoje em um arremedo de time como esse do Mogi.
E pensar que ele queria se aposentar no seu Santos querido, e foi chutado por aquele safardana, mau-caráter, cujo nome não direi.

Thalita disse...

Belíssimo post, em homenagem AO cara. Não consigo lembrar de outro jogador (que eu tenha visto jogar) tão bom e que seja tão esquecido e injustiçado

Fabricio disse...

E pensar que foi dispensado do Palmeiras alguns anos antes.

Alguém no Parque devia (caso não tenha acontecido) perder o emprego.

Glauco disse...

Injustiçado inclusive pelo Zagallo em 98, que o pôs na reserva depois da estreia para colocar o Leonardo. Mas, nesse caso, era só mais um armandinho-volante entrando no lugar de um meia, como aconteceu em 94 (saída do Raí) e 2002 (saída do juninho Paulista).

Anselmo disse...

estar no mogi mirim neste ano é bem triste. todas as homenagens!

Anônimo disse...

Sem querer copiar o Neymar:
Legal pra caralho! E realista! Já viu também a situação do Jardel ?