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sexta-feira, novembro 09, 2007

Long neck Nova Schin a 17 reais

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Foi em Londres, em 2004. Eu morava naquelas bandas, uns camaradas músicos iam tocar samba num bar "brasileiro" chamado Guanabara, em Covent Garden, no centro. Lá fomos eu, a patroa da época e um camarada, o George, que estudava inglês e trabalhava de garçom num bufê de festas para os chiques britânicos. O Alemão, outro amigo nosso, fez as pick-ups e tocou samba-roque na entrada e nos intervalos. Até aí, tudo conforme.

Vamos comprar a cerveja. Quem conhece a capital inglesa sabe que isso não é exatamente uma preocupação. Qualquer canto tem o seu Pub, com lager ultragelada ou bitter em temperatura mais ou menos ambiente, a tradicionalíssima irlandesa Guinness e outras tantas variedades. A cerveja é servida em pints, um copo que praticamente corresponde a uma de nossas garrafas, com seus 568 ml, ou em half pints.

Aconteceu, no entanto, que os cabras acharam que a cerveja tinha que ser "a caráter". Só tinha long neck Nova Schin, ao custo de 4 libras. Cada libra na época valia uns R$ 4,40, totalizando R$17,40!!! Ninguém vai deixar de beber, mas o camarada George registrou sua análise, sem contestações: "Os caras acham que bar brasileiro é o que vende cerveja brasileira. Bar brasileiro é o que vende cerveja barata". Opa!

"Estou ameaçado de morte"

Mas isso não foi o mais surpreendente da noite. Conhecemos o produtor da banda, cujo nome nenhum manguaça vai exigir de mim que me lembre, mesmo considerando que o preço e a revolta impediram que eu bebesse o suficiente pra fazer a cabeça. Mas o cara tinha história pra contar.

Era mais um de tantos paulistanos de classe média que vão a Londres viver a liberdade de andar sem documentos, comprar "cogumelos mágicos" (magic mushrooms) no mercado, ganhar uns trocados em subempregos. Ele trabalhava como entregador de pizza, e pra isso comprou uma moto. Na hora de registrar o veículo, não pedem documento, apenas perguntam o seu nome. A dele estava em nome do Silvio Santos, um dos maiores proprietários de motos na Inglaterra. A brasileirada acha então que não precisa cumprir nenhuma lei de trânsito, pois as multas vão pra conta do Silvio. E o cara abusou um pouco.

Mas se o registro é apenas pro forma, o mesmo não se pode dizer do seguro obrigatório, que exige apresentação de passaporte e comprovante de endereço. Pra encurtar a história, pegaram o cara e ele foi convocado a se apresentar aos tribunais ingleses, que estão entre os mais tradicionais do mundo, onde os juízes usam até peruca branca.

Encurralado, o manguaça resolveu arriscar tudo. Diante das Royal Courts of Justice, confessou: "É verdade, eu falsifiquei o registro e tomei as multas todas. Mas vocês não podem me mandar de volta pro Brasil". Pausa entre os magistrados. Eles trocam olhares. Finalmente, perguntam a razão de tal impedimento. O cara, que nunca deve ter saído da Vila Madalena, truca: "Sou do MST, estou ameaçado de morte. Se voltar ao meu país, vou morrer."

Conseguiu asilo político, e deve estar por lá até hoje.



10 comentários:

Glauco disse...

Olha, acredito que esse post seja um incentivo à imigração ilegal com vistas a uma verdadeira fuga de pessoas do país. Logo vai ter gente dizendo que não pode voltar porque é perseguida pelo Capitão Nascimento, pelo Saci Pererê e pelo bumba meu boi.
Mas, por outro lado, o dado da Nova Schin incentiva a permanência na terra de cá. Na dúvida, melhor manguaçar por aqui.

Anselmo disse...

R$ 17. violação de direitos humanos?

Alex Sotto disse...

Passei por coisa parecida dois anos seguidos e não foi nenhum exercício de masoquismo.
F1 em Interlagos, cerva só New Skin e a 4 conto, nos ambulantes que passam no G custa cinquinho...
Foda é que tem que chegar cedo pra pegar lugar legal, aí eu passava num mercadeco que tem na frente do G e comprava umas Old Schol, tomava aos grandes goles antes de entrar pra imunizar o estômago, aí a Jovem Isquim não faz tanto mal...


Alex Sotto

maurício disse...

Alex, vc contou essa, me fez lembrar de uma tira do Laerte. Era uma página inteira, representando um carnaval estilo bloco baiano, com um trio elétrico ocupando meia página e aquela multidão se expremendo em volta. Aí um cara, imobilizado naquele mar de gente, pede gritando uma cerveja, ao que o vendedor responde que só tem Malt 90 quente a 5 reais. E o cara: "Me dá quatro".

Guillermo disse...

Cara,

muito boa a sua história. se possível, escreva outros artigos sobre a sua experiência além mar.

Abraço e DÁ-LHE GRÊMIO!!!

Anônimo disse...

É incrível como alguns pequenos burgueses alienados se vangloriam de suas aventuras européias, entre uma faxina e outra.Chega meninada!

mauricio disse...

por que será que os bastiões da democracia e do engajamento são sempre anônimos?

Nicolau disse...

O cara tá falando de cerveja, anônimo, de cerveja. Larga mão, vá!

Marcão disse...

Nova Schin?!?? Sério, não é nem pelo preço astronômico, mas eu teria ficado sóbrio. Ou melhor: saía dali em direção ao primeiro boteco sujo - se é que existem boteos sujos, na ascepção da palavra, em Londres (um amigo meu que morou lá recorria a cervejas coreanas de imigrantes clandestinos idem, bem mais baratas).

clabap disse...

Mau, essa é para você.
Se na Inglaterra tem asilo político para o Berezovski, porque não o fariam com o ilustre manguaça? Está certo que o Berê pode comprar Nova Schin a 4 libras enquanto que o manguaça teria mais dificuldades de encher a lata sem pesar no orçamento, mas a Justiça é cega, cerrrto?
Abraço,
Cicinho.