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Assisti à partida entre Santos e Corinthians ontem à noite pela Band e fiquei chocado ao cosntatar como uma transmissão esportiva pode retroceder e ratificar preconceitos que pareciam, no mínimo, mais envergonhados nos últimos anos.
O jogo era narrado pelo veterano Luciano do Valle, comentado pelo ex-atleta Neto e com reportagem de Fernando Fernandes. A "novidade" da jornada, anunciada a toda hora com garbo e elegância pelo titular do microfone, era a presença de umA repórter em campo.
Como assim novidade, perguntará quem lê? A presença das mulheres no jornalismo esportivo já tem se tornado rotina e tende a crescer cada vez mais. Mas o caráter inusitado do trabalho da moça, "conduzida" por do Valle, é que ela tinha como função traduzir o "olhar feminino" da peleja.
Por "olhar feminino" entendam comentários que vinham elucidar questões como "Fulana, quem está mais elegante hoje? Luxemburgo ou Leão?". E lá ia a repórter discorrer sobre as vestimentas de ambos, decretando um empate no quesito. E tome elogios do locutor, como se estivesse tratando com uma néscia.
Assim se seguiram diversas pérolas, até mesmo um pedido especial do âncora. "Você podia perguntar pro Leão o que ele faz pra não desarrumar o cabelo mesmo quando ele fica nervoso?". A proto-piada é repetida no segundo tempo.
Na segunda etapa, aliás, um lance capital na partida. Fábio Costa volta com a camisa trocada no intervalo. Após mais de dez minutos, quando qualquer um já percebeu a mudança - e se não percebeu é porque pouco importa - o Santos perde um lance na área corintiana e a repórter "anuncia" a troca do arqueiro peixeiro. Do Valle se sai com essa, mal contendo o entusiasmo: "Só mesmo olhar feminino pra notar, com a bola do outro lado, que o goleiro tinha trocado a camisa".
Quando você acha que já viu toda sorte de besteiras em uma transmissão, ainda tem que suportar uma "novidade" com esse inacreditável espetáculo de preconceito.



















Faleceu ontem uma das figuras mais assíduas e emblemáticas do Bar do Vavá, meu amigo Cícero (foto). Outros colegas do blog também o conheceram. Nordestino calejado e quieto, de uns 66 anos, Cícero se orgulhava de ter criado cinco filhos na periferia braba e nenhum deles ter partido para o crime. Quando o conheci, me confidenciou a saga que o trouxe até São Paulo. Ele era um caixeiro-viajante de 18 ou 19 anos, no final dos anos 50, quando o rígido código de honra do sertão o obrigou a vingar uma irmã que havia sido ultrajada. Pode parecer conversa, mas eu morei em Sobral (CE), cidade natal de Cícero, e sei que lá essas histórias são comuns - e o código de honra continua o mesmo.


















