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sábado, novembro 29, 2008

The BOBs, os blogues e a democratização da comunicação

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Acabou a votação no The BOBs e esse Futepoca ficou na terceira posição no voto popular. Primeiro, os agradecimentos a quem votou e divulgou o nosso site, que conseguiu um resultado excepcional. Além do muito obrigado, parabéns ao vencedor, Querido Leitor, da jornalista Rosana Hermann que bloga desde 2000 e antecipou um estilo celebrizado pelo Twitter, fazendo micro-blogagem antes do termo existir. E também ao vice, o sociólogo Carlos Serra, que tive o prazer de entrevistar para a revista Fórum antes de ter sido indicado para a premiação alemã.

Isto posto, à vaca fria. Acho que é um consenso entre os membros desse blogue que, de uma forma ou de outra, todos acreditam que os blogues têm potencial para se tornar algo que fure o cerco da grande imprensa. A própria jurada brasileira no The BOBs, Soninha Francine, comenta sobre isso nesse post a respeito da premiação, frisando o “poder da internet como ferramenta de empoderamento dos indivíduos e grupos sociais, de alternativa à 'grande mídia', de profundas transformações sociais.”

Acho mesmo que os blogues e sites “independentes” (o conceito disso é complicado, mas atribuo ao termo a autonomia em relação a diretrizes comerciais/empresariais) trouxeram e trazem todos os dias uma oxigenação maior na circulação de informações e opiniões. Pluralidade e muita qualidade também. No entanto, uma declaração da vencedora do prêmio de melhor weblog, a cubana Yoani Sánchez, me fez pensar que não avançamos tanto assim. Pra contextualizar, o blogue dela fala do cotidiano de jovens na ilha de Fidel e sobre os óbvios problemas decorrentes da restrição de liberdades (o debate a respeito disso daria outros posts, mas não é o foco agora). Diz ela:

A blogosfera cubana e também a internacional comemorarão o prêmio comigo, mas a imprensa e a televisão cubanas permanecerão em silêncio. Um dia, a vida real será como o ciberespaço e todos nesta ilha poderão se expressar sem pedir permissão. Este prêmio é mais um passo nesse sentido.”

Substitua os negritos por “brasileira”, “brasileiras” e “neste país”. Dá pra colocar reparos? Ou seja, em plena vigência da democracia formal e representativa, os blogues no Brasil não têm o alcance ou o reconhecimento de outros veículos da mídia tradicional, mesmo que blogueiros premiados como a própria Rosana Hermann ou Marcelo Tas, sejam oriundos do mais vistoso meio de comunicação, a televisão. Aqui não há restrições legais rígidas a blogues (embora alguns queiram que ela exista), mas há limitações de outra ordem.

A primeira é o próprio nível educacional da população. As estatísticas se contradizem, mas o nível de analfabetismo funcional no país ultrapassa a marca dos 70%. Como estes poderão blogar ou mesmo entender o que é escrito em um? Se de fato a blogosfera está preocupada em se tornar respeitável e também um motor de transformação, não é possível dissociar disso a preocupação com políticas públicas na área da educação. E, acredito, a própria técnica dos blogues pode ser incorporada também ao ensino, por que não? Passou da hora de blogueiros se mobiliarem em prol disso, assim como é fundamental a ampliação do acesso – público e privado - à internet.

Mas há outra limitação, tão severa quanto, que é a concentração midiática. Os meios tradicionais já têm seus braços na internet e, se alguns permitem autonomia e liberdade para seus blogueiros, boa parte age de outra forma. Já soube de pessoas lamentando o fato de serem proibidas de colocar links para o Futepoca, por exemplo, porque estão com blogues alojados em meios que não permitem que se dê “cartaz” a sites que não estão em tal portal. Ou, como outro exemplo, o relato que um blogueiro me fez, dizendo não poder comentar a respeito da campanha Marcelo Eterno, sobre a “perenidade” do presidente do Santos no poder, pelo fato de que política de clubes era um tema proibido em seu blogue, pelo portal que o alojava. Ou seja, fale só do que acontece dentro das quatro linhas. Ué, mas estamos em Cuba?

Acho que é bastante claro que a inserção dos grandes donos da bola da comunicação na internet pode representar a concentração de audiência e a padronização de visões, deixando a uns poucos nichos, que serão menos acessados, a livre opinião. Se os blogueiros não pensarem nisso, ficarão para trás. Ou serão engolidos.

5 comentários:

Saulo disse...

O Blog é muito bom para a comunicação. Eu mesmo não largo mais.
Ah, votei no seu Blog heim.

Julio disse...

Você citou Rosana, uma direitona metida a moderninha. Soninha Francine, faça-me o favor. Esta "vendida" que se elegeu com discurso progressista e que hoje implora boquinha ao Serra e Kassab. E este clichê sobre a falta de liberdade em Cuba. Menos, por favor, muito menos. O bom é a pedofilia comendo solta como aqui no bananão. Parece aquela piada, que o sujeito diz que no país dele ele tinha liberdade para gritar e esbravejar. O cubano, sorri e responde, mas quem o ouve?

Anselmo disse...

Puxa, Julio, que bom que você não leu o texto inteiro. E o que é "direitona metida a moderninha"? será que você acha que não tem gente que presta atenção em coisas novas na turma da direita?

Nem sei se a Rosana Hermann é de direita como você diz, mas ela merece os parabéns porque achou uma fórmula (nem tão restrita ao microblogging, mas com muito disso) e toca o barco com leitor pacas. Fez blogue antes e segue fazendo.

É lógico que eu prefiro o Futepoca, mas se a gente não preferisse seria até estranho.

Agora, glauco, mto adequada a substituição de termos (cubanos por brasileiros) e de se pensar em estratégias pra furar o cerco de mídia. E mais ainda em colocar o analfabetismo funcional com obstáculo que precisa de mais atenção do ponto de vista da inserção da população no universo da internet.

eliza capai disse...

excelente post glauco! confesso que quando li os 70% de analfabetos funcionais até desconcentrei: que tristeza. trabalhei em alguns projetos em escolas públicas paulistana em que a idéia era incorporar as "novas tecnologias" no ensino. a idéia era excelente mas o que observava era que os professores não tinham qualquer intimidade com a internet e por tanto não conseguiam fazer a tal ferramenta um prazer: virava uma chatice... mas acho muito que o caminho é por aí! mas é longo; talvez a moçada que agora tem 20, já entrou no ginásio nos tempos de internet e que se comunicam via facebook/flickr/orkut... possam ser os professores de uma nova geração que busca o que quer ler, e lê... oxala...
obrigada pelo post!
e parabéns pelo terceiro lugar! dei meus votinhos...

Marcão disse...

Em primeiro lugar, obrigado ao Saulo e à Eliza pelo interesse no Futepoca e também pelos votos. Voltem sempre!

Eu entendo as críticas do Júlio, mas, como o próprio Glauco escreveu, "o debate a respeito disso daria outros posts, mas não é o foco agora".

A blogosfera tem crescido, mas ainda encontro pessoas que a desconhecem completamente e, para elas, tenho enorme dificuldade em explicar o que é um blogue, como funciona e a que se propõe.

De qualquer forma, trabalhando em uma ONG e em contato direto com a sociedade civil organizada e empreendimentos de economia solidária, noto que os blogues são uma ferramenta de trabalho e de divulgação utilizada com freqüência cada vez maior.

Mas é o que o Glauco atentou: proliferar blogues e aumentar o acesso aos computadores e à internet não garante que o debate será intenso e em alto nível. Muita gente só usa a internet para falar no msn e fazer gracinhas no orkut.

É preciso educação, politização, estímulo à crítica e ao diálogo. Defender políticas públicas nessa direção é nosso dever e prioridade. Podemos, sim, ser um instrumento de pressão. É isso, talvez, o que premiações como a do BOBs pudessem estimular ou trazer como mensagem principal.

No mais, obrigado a todos os votantes e esse 3º lugar é, com toda certeza, mais uma prova de que o Futepoca tem sua importância e merece um lugar ao sol. Estendo os parabéns aos outros sete colegas que aqui escrevem comigo, além de todos os colaboradores, eminências, amigos e leitores que, juntos, construímos diariamente esse espaço de debate, diversão e reflexão. E, por princípio, democrático e plural. Parabéns, novamente, a todos.