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sexta-feira, agosto 15, 2008

O que o dinheiro separa, só a cachaça pacifica

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Autores de algumas das canções mais executadas no mundo em todos os tempos, os ingleses John Lennon e Paul McCartney sempre procuraram manter o público alheio às suas (muitas) divergências nos tempos dos Beatles. Porém, depois que a banda acabou, em 1970, ninguém se preocupou mais em manter as aparências. Envolvidos numa briga ferrenha por dinheiro, John, Paul, George Harrison e Ringo Starr (ou Richard Starkey) só conseguiriam chegar a um acordo judicial e assinar a dissolução formal do grupo em dezembro de 1974. Nesse intervalo, porém, a guerra foi feia, muitas vezes descambando para a baixaria.

Em maio de 1971, Paul partiu para o ataque em seu álbum Ram. Na capa, aparece segurando um carneiro pelos chifres (no alto, à direita), numa referência velada ao período barbudo/cabeludo de Lennon - e muito menos velada ao fato de ter "conhecido" Yoko Ono, no sentido bíblico, muito antes do parceiro se casar com ela. Mais provocadora ainda é a contracapa, que traz uma pequena foto de dois besouros (beetles, em inglês) transando. E Lennon entendeu a maldade da canção Too many people, que tem versos como "Too many people preaching practices/ Don't let them tell you what you wanna be" ("Muita gente pregando práticas/ Não deixe eles lhe dizerem o que você quer ser"), em alusão aos discursos engajados de John e Yoko sobre política, paz e comportamento.

Lennon rebateu cinco meses depois, em outubro de 1971, no disco Imagine. A primeira resposta vem no encarte, que contém uma foto dele segurando um porco pelas orelhas (foto à esquerda). Já na letra de How do you sleep?, o soco é no estômago de Paul, sem rodeios: "The only thing you done was Yesterday/ And since you've gone you're just Another day" ("A única coisa que você fez foi Yesterday/ E desde que se foi, você é apenas Another day"), referindo-se a duas músicas, a última, bem bobinha, o primeiro grande sucesso de McCartney pós-Beatles.

A reconciliação aconteceu por acaso. Em março de 1974, Lennon estava separado de Yoko e tomando todas com o cantor Harry Nilsson e o baterista do The Who, Keith Moon, em Los Angeles, Estados Unidos. De passagem por lá, McCartney resolveu falar um oi ao ex-colega - e, óbvio, beber alguma coisa (acima, John, Keith e Paul juntos). Pois a dupla passou a tarde na praia, tomando umas e rindo das velhas histórias. A fase carneiro/porco foi esquecida e o clima ficou tão bom que eles terminaram fazendo uma jam session em um estúdio local, com Moon, Nilsson e Stevie Wonder, entre outros (gravação que virou um disco pirata: A Toot and a Snore in '74 ). Um belo exemplo da capacidade pacificadora da bebida alcoólica...

6 comentários:

Olavo Soares disse...

Belas imagens. Dia desses tava lendo um texto - do qual não faço idéia quem era o autor - em que se dizia que um dos efeitos colaterais da troca dos MP3 e da consequência desvalorização da "entidade" álbum é o desprezo aos encartes, que se tornavam obras que davam muita sustância aos discos em si.

Anselmo disse...

excelente o post. Não conhecia a história.

o que é melhor, segurarem seu chifre enquanto carneiro ou ter sua cabeça pisada enquanto porco?

quando os cds passaram a comportar 20, 30 músicas, tinha gente que dizia que isso matava o conceito de LP que quase funcionava como narrativa... Todas os formatos dominantes praticados pela indústria têm suas características. algumas mudam outras permanecem.

É mto comum encontrar nos myspaces de bandas ou mesmo no compartilhamento de mp3 ilegal, capas e encartes escaniados ali para o download. Não é a mesma coisa para encartes produzidos há 10 ou 50 anos.

Mas pras novas produções, a turma tem que inventar outros formatos de encarte, que inclusive possam ser rodados de um em um, na impressora jato de tinta da lan house (ou de casa, claro). A Trama montou uns encartes bem produzidos, em Flash. Mas acho que a coisa vai mais longe.

na pior das hipóteses pro bar da esquina.

Glauco disse...

Meu irmão tem uma opinião bastante particular em relação à dupla Lennon/McCartney. Ele diz que a distância entre um e outro é quivalente a que existe entre Raul Seixas e Roberto Carlos, caso eles tivessem feito parte de um conjunto nos anos 70. Desnecessário dizer de quem ele é fã...

Conceito algo exagerado. Mas acho que concordo em parte. As músicas melosas do Macca e aquela historinha dele com a Linda (com quem ele diz ter conversado após a morte) são coisas de algum tipo de mente doentia e glicosada.

Maurício disse...

é verdade, tem as coisas melosas, algumas letras que dão vontade de vomitar, mas o grande músico dessa dupla é sem dúvida paul mccartney. as linhas de baixo que ele criou para os beatles são verdadeiras relíquias composicionais. musicalmente, era o mais culto e mais sutil também. enquanto lennon era mesmo um raul seixas, roqueirão mais grosseiro, mais 'simprão', embora cheio de idéias e com um carisma particular.
agora, o que eu queria realçar é que esse tipo de história deveria constar nos preâmbulos da lei que instituirá o Manguaça Cidadão. acho sinceramente que o futepoca deveria encampar essa batalha e tornar-se ponto de cultura.

Anônimo disse...

Entre McCartney e Lennon? Eu fico com os dois.

O primeiro presenteou o mundo com "Hey Jude". Acham melosa? Então escutem "Helter Skelter" e "Birthday", que também são dele.

O segundo deixou um grande legado, cuja essência pode ser ilustrada com "Júlia", uma homenagem à mãe.

O importante é que, juntos, os dois tornaram-se em uma das maiores duplas de compositores, depois de Beethoven, como alguém já disse com certo exagero...

Gostei muito do post. Achei que nunca tivesse havido algum reencontro após a separação em 1969/1970. Fico imaginando no bate-papo que deve ter rolado entre duas criaturas que se admiravam mutuamente, como eles próprios vieram a reconhecer depois.

Rafael disse...

RAPAZ!!!

Nunva ouvi esse pirata de 74. Deve ser irado!

John e Paul juntos de novo depois dos Beatles. Inacreditável.