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Aos seis minutos da prorrogação, ela adiou novamente o sonho brasileiro de conquistar o ouro no futebol feminino. Uma finalização inapelável, que ainda chegou a tocar o gramado antes de entrar no gol de Bárbara. Carli Lloyd, 26 anos, a autora da façanha, conta que a derrota para o Brasil no Mundial foi um fator a mais de motivação para a equipe que superou o time de Marta, Cristiane e companhia.
A entrevista a seguir, concedida por e-mail, ao que parece é a única até agora na mídia internética de cá. Nela, Lloyd desconversa a respeito do suposto episódio em que jogadoras do Brasil teriam filmado as atletas estadunidenses chorando por causa da derrota no Mundial, no saguão do hotel em que ambas as equipes estavam hospedadas. Mas, de forma indireta, não deixa de cutucar a seleção brasileira, com jogadoras badaladas como Marta e Cristiane. “Essa vitória nos Jogos Olímpicos de 2008 vai ficar na História e mostrará ao mundo que não é preciso ter estrelas para se vencer eventos mundiais. Você precisa somente de um time, um time que trabalha duro e onde uma acredita na outra.” Por aqui, parece que muita gente ainda não entendeu essa receita básica. Abaixo, as respostas (sintéticas) da “carrasca” da seleção em Pequim.
Futepoca - Que impacto a conquista da medalha de ouro da seleção feminina teve em seu país?
Carli Lloyd - Sempre que alguém ganha uma medalha de ouro, isso é um grande acontecimento para o nosso país. Foi um sentimento inacreditável.
Futepoca - Você lembra de detalhes do seu gol contra o Brasil?
Lloyd - O gol aconteceu tão rapidamente que eu só lembro de receber a bola e passar por trás da minha perna pra nossa atacante. Ela tocou de volta para mim, ajeitei com o pé direito e chutei com o esquerdo. Revi meu gol e observei que o meu pé de apoio estava muito bem colocado perto da bola e isso garantiu uma boa finalização, que, ainda bem, entrou no gol.
Futepoca - Qual a orientação da treinadora da seleção [Pia Sundhage, no cargo desde novembro de 2007] antes da partida final em Pequim?
Lloyd - Pia é maravilhosa. Não se estressa e sempre diz para acreditarmos em nós mesmas. Ela agiu da mesma forma que age antes de qualquer jogo. Não foi diferente antes da partida contra o Brasil.
Futepoca - Havia um clima de revanche contra o Brasil? A imprensa daqui disse que a seleção brasileira havia desrespeitado jogadoras do seu time após a partida no Mundial. Isso é verdade?
Lloyd - Toda vez que você perde para um time você quer vencê-lo da próxima vez. O Brasil é uma grande equipe, nos bateu de uma forma terrível na Copa do Mundo e nós respondemos com uma vitória nas Olimpíadas. Essas coisas acontecem no esporte.
Futepoca - Quando você começou a jogar futebol? Como conheceu o esporte?
Lloyd - Comecei a jogar futebol aos cinco anos. Meus pais me iniciaram e me ensinaram quando eu era mais nova.
Futepoca - Você acredita que a medalha de ouro pode ajudar o futebol a se tornar mais popular nos EUA?
Lloyd - Sim, acredito que essa vitória nos Jogos Olímpicos de 2008 vai ficar na História e mostrará ao mundo que não é preciso ter estrelas para vencer eventos mundiais. Você precisa somente de um time, um time que trabalha duro, onde uma acredita na outra. Nós tivemos sete jogadoras diferentes marcando gols nessas Olimpíadas. Foi um grande avanço para o futebol nos Estados Unidos.
Futepoca - Aqui, a estrutura do futebol masculino é muito melhor do que a do feminino. Isso acontece nos EUA?
Lloyd - Sim, é claro que o futebol masculino é mais popular que o feminino e acredito que a razão para isso é que há mais homens dominando todas as modalidades nos Estados Unidos. Mas acho e espero que, com a volta da nossa Liga profissional, isso vai mudar e vai aumentar a popularidade do futebol feminino.
PS: A última resposta enseja uma observação de quem diz que nos EUA o futebol feminino tem estrutura e aqui não. Houve uma liga profissional da modalidade (WUSA) entre 2001e 2003, que resultou em um estrondoso prejuízo, o que causou sua extinção. Desde então, não existe futebol feminino profissional no país, ou seja, a modalidade é disputada apenas em escolas e universidades e a seleção de futebol é permanente. Em 2009,o campeonato renascerá no mês de abril, como Women's Professional Soccer (WPS).


















Fui convidado para escrever sobre Fórmula-1 neste site. Mas peço licença a vocês e ao Felipe Massa, que venceu sem contestação o GP da Europa (prova chatíssima disputada no belo circuito de rua de Valência), para falar um pouco sobre a campanha olímpica do Brasil em Pequim. Como alguns de vocês sabem, no último ano, por questões profissionais, mergulhei nas entranhas da estrutura que administra o esporte olímpico brasileiro. E dessa imersão tirei algumas conclusões que talvez ajudem a explicar o nosso desempenho apenas razoável na China (aliás, em todos os jogos anteriores), como bem definiu o presidente Lula (acima) no "Café com o presidente" de hoje.
Vamos a elas: nunca o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) recebeu tantos recursos e investimentos, sejam eles privados ou estatais, num ciclo olímpico. No total, passaram pelas mãos de Carlos Arthur Nuzman (à direita), presidente do COB, & companhia (leia-se: presidentes de confederações), cerca de R$ 1,2 bilhão. A maior parte desse dinheiro veio da Lei Piva, que destina 2% da arrecadação das loterias para COB, para as confederações de cada modalidade esportiva e para o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) - se bem que este último leva apenas 15% do bolo.
Como se nota, o problema deixou de ser a falta crônica de recursos e passou a ser a gestão deles. O COB, que tem como fonte própria apenas as verbas dos seus patrocinadores, administra esse dinheiro alheio como bem entende. O resultado disso é que esportes sem muita expressão e visibilidade acabam recebendo migalhas. São modalidades como tiro esportivo (à esquerda), lutas, levantamento de peso e tênis de mesa, só para citar algumas, que, para outros países, são verdadeiras usinas de medalhas. Por isso, se quiser ser uma potência olímpica, o Brasil terá que olhar mais para os esportes nanicos.
Como maior financiador do esporte de alto rendimento no país, o governo federal não pode se omitir da tarefa de fiscalizar e acompanhar o uso dos seus recursos, sejam eles diretos ou indiretos. Mas peralá: longe de mim defender uma intervenção federal na atividade. O que sugiro é a participação de todos os segmentos envolvidos, governo, COB, confederações e atletas, na decisão de como e onde aplicar esse dinheiro. O que não dá para aceitar é alguém administrando os bônus e repassando os ônus. Aí a vara quebra, o cavalo refuga, o uniforme encolhe e o país anda para trás na conquista de medalhas olímpicas (acima, à direita).









